River Rouge, o símbolo maior da era Ford

Comprei uns livros no início do mês passado, todos sobre a história do automóvel, pois eu preciso variar as leituras de quando em vez.

Naquela primeira passada de olhos pelo lote, um me pareceu desperdício de dinheiro. Algumas semanas depois e o livro não me sai mais da cabeça.

O livro em questão é River Rouge: Ford’s industrial colossus, de Joseph Cabadas, e conta a história do maior complexo industrial do início do século XX, concebido por Henry Ford a partir da sua visão messiânica da alta produtividade, baixo custo de produção e total verticalização da produção. O resultado disso foi o complexto industrial de Rouge (ou Rouge River Plant ou simplesmente a fábrica de Dearborn, local onde está instalada, às margens do Rouge em Detroit, Michigan). Rouge foi um lugar em que minério de ferro se transformava em um automóvel em pouco mais de 24 horas. É uma história única no século XX, e merece ser lida e contada. Abaixo, uma ilustração que tirei da Life, um pouco mais nítida do que as outras cópias que estão por aí, e dá uma idéia do colosso que foi esta planta industrial.

É verdade que as fábricas de Flint e Lindsey, da General Motors, já haviam assimilado primeiro a verticalização da produção, mas a propaganda em torno da planta de Rouge a tornou um ícone americano e mundial, visitada ente outros pela família Toyoda e Nelson Mandela, lar do Ford A de nº 20.000.000, do Ford 49, do Thunderbird e do Mustang.

Para a minha sorte, pois me poupa os dedos, a melhor página na internet que encontrei sobre Rouge, com um excelente resumo da história da planta em seus anos de glória, foi escrita pelos amigos do Clube do Fordinho, e você talvez queria o link, que é este aqui. Não deixe de ler, os números são impressionantes.

Um destes números, que tirei de outro livro que veio no lote e me fisgou logo de início, é de que em River Rouge chegaram a operar mais de 4.000 prensas (!!!) para estampar a lataria de automóveis. Algumas tinham o tamanho de pequenos prédios e suas fundações cravavam no solo a mais de 35 metros de  profundidade. Para abastecer tudo isso, um siderúrgica completa, para fundir metal na forma de motores e chassis e o resto era convertido aço que era devorado pelas prensas. Tudo isso era alimentada por energia elétrica gerada na própria planta da Ford, por uma usina que poderia servir à uma cidade americana de porte médio.

Eu não vou repetir o que você talvez já saiba ou já tenha lido lá no Clube do Fordinho, mas é que eu fui pesquisar ainda mais sobre o assunto e acabei dando de cara com uma matéria publicada na Life Magazine, em 1940, citada até pelo primeiro livro, e que traz fotografias que nem mesmo nos livros que eu comprei existem. E algumas são muito bonitas, ao mostrarem em cores o gusa escorrendo pelas canaletas, prato feito pro Nanael, que entende do riscado.

Uma curiosidade. Na foto acima, que não veio da Life, o que se vê não são os carros produzidos em Rouge pela Ford, mas o estacionamento dos trabalhadores, antes do crack de 29 e do racionamento de combustível da 2ª Guerra Mundial. Henry Ford criou a classe média operária da noite para o dia, ao dobrar o valor da hora trabalhada ainda na década de 10. Enquanto todos em Detroit pagavam por uma jornada de 9 horas a u$2.50 a hora, na Ford eram 8 horas a U$5.00.

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Indo mais adiante, agora em outra edição da Life, porém da década de 30, achei um mapa das fábricas de automóveis de Detroit. O que ele mostra de mais relevante é que, na 4º maior e mais próspera cidade do mundo de então, capital mundial do automóvel, nenhuma fábrica rivalizava em tamanho com River Rouge. Seu tamanho é descomunal e serve de prova a várias coisas, entre elas a capacidade de Henry Ford de empreender e realizar tarefas absolutamente extraordinárias, nem que seja com um empurrãozinho da 1ª Guerra Mundial e do Tesouro americano, a origem material do empreendimento que ele havia idealizado anos antes, em Piquette Avenue. Clique no mapa abaixo e a planta de Rouge está em primeiro plano, no rodapé.

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Outra curiosidade. Deve-se ao complexo de Rouge o fato de que em Dearborn, Michigan, está a maior colônia de muçulmanos da América do Norte.

Abaixo, a linha de montagem e teste dos motores flathead em foto de 1936. Veja a esperteza dessa gente: linhas de óleo e combustível era conectadas ao motor que por sua vez era girado por motores elétricos, a fim de testar com máxima rapidez cada máquina recém-montada. Para mim, que nunca pisei em fábrica alguma, é algo genial.

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Bom, fato é que, lendo o livro do Cabadas, cujo avô trabalhou em River Rouge, eu gastei muito tempo pensando em como a industrialização americana é precoce e singular e por isso tão diferente da nossa. As cenas de minério sendo fundido para atender a apenas uma só fábrica só aconteceriam em nosso país muito mais tarde, e em menor volume, quando foi ligado o primeiro alto-forno da CSN. Pensei em como o entorno de Detroit e além contribuíram com a fartura de suas riquezas naturais para saciar o apetite do mundo pela novidade do auto-móvel. Para tanto, Henry Ford comprou tudo que havia em volta: minas de carvão, de minério e calcário; depósitos de areia para produzir vidros e até os pneus passaram a ser produzidos ali, para a tristeza do amigo de longa data Harvey Firestone e após o malogro da experiência em Fordlândia, no Pará. Tudo isso produziu em mim um misto de surpresa, empolgação e tristeza. Mas essa não foi a primeira vez nem terá sido a última em que um homem entusiasmado definiu seu tempo e sua época pelo poder de suas idéias, transformando a vida e os valores das pessoas à sua volta. Para o bem e para o mal.

A fábrica existe lá até hoje, se preparando para o século XXI, mas sem os alto-fornos e muito das características originais, tão caras e típicas de sua época. Em Rouge, como sabemos, se produziram os automóveis mais emblemáticos da Ford, Mercury e Lincoln, inclusive meu Custom 51, pelo que li em seu VIN. Ali foi o estábulo dos Mustangs, me lembro da leitura do Iaccoca. Também foi palco das lutas sindicais dos anos 40, das manifestações pelos direitos civis dos afro-americanos e uma miríade de fatos econômicos, sociais e políticos que reverberam pelo mundo ainda hoje.

Enfim, este post é uma colcha de retalhos sobre um assunto rico, complexo e no mínimo muito interessante.

A matéria da Life, pretexto deste post, segue abaixo.

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