No use, Mac. It’s a Ford V8.

Os cães não correm mais atrás dos carros. Se cansaram antes de nós, perderam o entusiasmo primeiro.
Mas nem sempre foi assim.
Houve uma época, quando íamos para a roça, em que o melhor momento da viagem era quando caíamos na estrada de chão e sabíamos que, de trás de qualquer lasca de braúna, podia sair um vira-latas irritado que nos perseguiria por muito tempo. Nos esprimíamos na janela e meu pai diminuía a toada para dar uma chance ao pequeno corredor. Eram quase sempre os mesmos, e a frustração era enorme quando um determinado cachorro não dava as caras. Por onde estaria? Na roça com o dono? Cobra mordeu?
Quando éramos cercados por um grupo era particularmente engraçado ver quem desistiria primeiro e quem por último. Este, geralmente, desistia depois de umas duas ou três olhadas para trás, para os colegas. Com a língua pra fora, arfando, diminuía a corrida e, abanando o rabo, nada cestroso, nos dava as costas e retornava para casa. Era assim, quase sempre, nos muitos quilômetros de terra batida até Monte Verde.
Há muitos anos que nenhum vira-latas orgulhoso do seu pedaço não nos persegue. Ou eu não me lembro mais de procurar por eles, ou eu acelero mais e eles nem tentam, ou eu deixei de ser criança mesmo, não sei.
Tudo isso e mais um monte de histórias me passaram pela cabeça quando eu achei, pela primeira vez, este anúncio da Ford, provavelmente de 1935:

Bom, eu pensei, se hoje nostalgia, nos anos 30 era uma prova de vigor. Imagine, onde se viu um Greyhound não querer correr? Desistir antes de tentar? O pequeno Terrier tudo bem, mas o Greyhound?

Fiquei pensando na cena dos calhambeques dos anos 10 e 20 pelas estradas e o motorista lendo um reclame assim. Só algum tempo atrás eu encontrei as fotos a seguir. Aí a coisa fez todo o sentido para mim.

Olha, Monte Verde hoje, em 2012, ainda não têm a urbanização desta cidade americana em julho de 1935, data da foto. Exceto por este detalhe, é bucólico do mesmo jeito. Mas os cachorros deveriam ser da mesma índole. Atentados.

Dei um zoom na foto, e vi – acho que vi – que o motorista do Ford aí estava com a cabeça inclinada para a esquerda. Será mesmo? Vi direito?

O que será que o cara pensou? Lembrou de algum vira-lata específico? Indicou um sorriso no canto da boca? Vai saber.

Achei esta outra foto lindíssima também, de outro lugar mas do mesmo anúncio, esta pequena pérola da propaganda.

Parece que desta vez ninguém deu bola para os cachorrinhos.

Por um motivo assim tão singelo e particular, este para mim é o mais criativo anúncio de um produto que eu conheci. Pois me fez abrir um sorriso e me lembrar de coisas tão boas como minha roça querida e a infância.

Sem preço, Mac.

Aproveitando a oportunidade – rara – de falar de Fords aqui no blog, segue outra da mesma época. Um billboard de um concessionário Ford de 1938. Veja que belo.

Essa foto era bem opaca, quando eu joguei ela no Photoshop o desenho do carro acendeu, ficou nítido, ganhou profundidade. Parecia em três dimensões. Dei um zoom e descobri que, na verdade, não é uma pintura. É realmente um Ford 1938 Tudor na beira da estrada!

Que tal estas rodas, calota e pneus? Sensacionais, Mac.

Toma um brinde, um calendário da Ford de 1938. De um dealer como o da foto seguinte.

No use Mac, it’s gone. Down to the memory lane.

8 comentários sobre “No use, Mac. It’s a Ford V8.

  1. Belair disse:

    Teu texto tambem me fez sorrir…Muito bom Nik!
    Essa serie de anuncios está realmente demais,e esse dos cães é de fato primoroso.

  2. regi nat rock disse:

    fez bem em mandar pro Face senão não iria ver.
    eu ficava agoniado achando que o dog ia quebrar a cara tentando morder o pneu, pois era exatamente isso que tentava.
    Putz! nostálgico . Que delícia!

  3. João Barbosa Dos Santos Neto disse:

    Au Au! Espetacular! Revivi isso quando era pequeno e meu pai tinha um Ford 1934, depois GMC furgão 1950! Lembranças da infância e de adulto , já eu conduzindo um Opel Kadette 1938 em 1970 pelas estradas lindeiras a Porto Alegre. O Opel estava dentro de uma garagem desde 1942, portanto vinte e sete anos sem que seus pneus originais tocassem o solo (estava em cavaletes) !

  4. Kleber Barroso disse:

    Esses anúncios com “meio carro” sempre me fascinaram… Lembro de um que tinha num prédio, que se via do Minhocão em São Paulo… No começo era um Fiat 147 pregado na lateral do prédio, depois trocaram para um Santana…

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