Freedom Riders, ‘I stand among heroes’

Lê-se na placa: sala de espera para brancos. Mississipi, 1943.

Uns meses atrás, madrugada alta, eu perdi o sono e fui assistir televisão. Por uma coincidência, zapeando pelos canais eu parei em um que reprisava um programa da Oprah. A abertura me chamou a atenção. O que vi naqueles primeiros minutos do programa me emocionou profundamente. E me fez perder o sono de vez.

A Oprah, a quem admiro muito, estava fazendo uma homenagem a um grupo de ativistas dos direitos civis que, há exatos 50 anos, ajudaram a mudar a história americana e a do resto do mundo. Este grupo de homens e mulheres, brancos e negros, eram chamados Freedom Riders.

Nesse tal episódio, cuja abertura não achei na rede, a Oprah inicia fazendo um rápido retrospecto da aventura empreendida por aquelas pessoas entre maio e setembro de 1961. Em um estúdio completamente escuro exceto em seu lugar, Oprah diz que ela e uma geração de negros americanos deviam a vida e as oportunidades que tiveram aos corajosos freedom riders. Aí, as luzes se acendem e finalmente vemos o porquê da penumbra. Ao seu lado, Oprah reuniu todos os 178 mebros sobreviventes daquelas viagens épicas. Meus cabelos se ouriçaram. Ainda mais quando ela afirma: ‘I stand among heroes’. Isso para um americano têm um significado desconhecido para nós, como você sabe.

E o que esse grupo fez de tão especial? Resolveram andar de ônibus pelo sul dos EUA em 1961, a fim de fazerem valer o cumprimento de uma decisão da Suprema Corte que julgou ilegal qualquer tipo de segregação racial em rodoviárias e ônibus interestaduais.

Dos que chegaram em New Orleans em 30 de maio, nem todos eram mais os que saíram de Washington. Foram substituídos na medida em que seus amigos eram hispotalizados e linchados pelo caminho

Um pouco da história. Uma decisão da suprema corte de 1960 havia julgado inconstitucional qualquer tipo de discriminação e segregação racial em viagens, rodoviárias e ônibus interestaduais. Era o efeito desencadeado por Rosa Parks, em 1955. E assim a União dava aos viajantes a prerrogativa de reclamarem estes direitos que, um ano mais tarde, continuavam não só ignorados em todo o sul, como ainda rendiam prisão a quem se insurgisse contra as leis locais. Ignorada a decisão suprema, que não foi sustentada pelo órgão federal responsável pela sua aplicação, num claro conflito de interesses entre os Estados do Sul e a União, que remonta à guerra de secessão, os freedom riders embarcaram então em dois ônibus a fim de abrir a fórceps seu caminho pelo sul escravista, expondo ao país e ao mundo a miséria em que os negros ainda eram submetidos na maior nação do planeta.

Kombi nazista: brancos aguardam os viajantes. Estados Unidos, 1961.

Em 4 maio de 1961, dois grupos embarcaram em dois ônibus em Washington D.C. com destino a Nova Orleans. Por caminhos diferentes, chegariam dias depois em Atlanta para dali seguirem viagem. Com isso, sabiam que desafiavam os estados do sul que não reconheciam a decisão da Suprema Corte de um ano antes, que declarou ilegal as infames Jim Crow laws. Arriscando a própria vida, eles queriam expor a chaga do racismo a uma sociedade que acreditava no jovem Kennedy como redentor de suas mazelas e na cândida Jaqueline a compadecida de sua feiúra histórica. A década que pariu algumas das mais profundas e radicais revoluções culturais e sociais do século, viu uma logo de início se iniciar também com anônimos sonhadores, obstinados por um ideal, que somente se propuseram a viajar de ônibus. Somente.

Guarda Nacional escolta um dos ônibus da primeira viagem, 1961

O resultado foi terrível, um quase-masscre, uma vergonha. Os freedom riders foram espancados, torturados e humilhados ao longo do caminho. Apanharam com tacos de beisebol, barras de ferro e correntes de moto tão logo entraram na Georgia. A Ku Klux Klan os esperava em todos os pontos de parada pelo caminho. Multidões se organizavam para sabotar a viagem. Foi um circo. A viagem deveria ter terminado em 14 de maio, mas o segundo ônibus só chegou a Nova Orleans no dia 30 daquele mês, após uma comoção nacional, com ampla cobertura diária da mídia em jornais e TV e a participação do governo federal de Kennedy. Eles só chegaram a Nova Orleans com escolta do exército e da Guarda Nacional,pois pelo caminho as multidões, em cólera, os desejavam pendurados num cipreste, com uma corda no pescoço ao lado de uma cruz ardente.

Jackson, Mississippi, 1961. Escolta para não matarem a todos na cidade mais racista dos EUA.

Na primeira parada, em Atlanta, a KKK ateou fogo ao ônibus e fecharam as portas. Gritavam ‘burn, motherfuckers, burn’ e se alegravam assistindo a tudo. Pais levaram os filhos para verem a cena, logo após a missa de domingo. Dessa primeira escaparam graças a um policial federal que passava por ali e disparou sua arma, sozinho, contra a turba. As autoridades locais, na verdade membros da Klan (desde o delegado, policiais, secretários e até governador), mais de uma vez deram um tempinho estratégico para que seus membros barbarizassem os ‘riders’ antes deles chegarem. A situação foi negociada, a partir daí e nos bastidores, pelo gabinete do Kennedy e pelo seu procurador federal, seu irmão Bob. Suas reputações não saíram imaculadas do episódio, em que pese terem dado apoio e segurança aos viajantes. MAs outros episódios ainda mais fortes se seguiram, a viaje havia apenas começado e havia uma longa estrada pela frente.

Grupo de brancos (ou melhor seria dizer de racistas filhas-da-puta?) impedem o Greyhound de sair da garagem em Atlanta. Instantes depois eles iriam incendiar o ônibus com todos dentro.

Dr. Martin Luther King os recebeu mais adiante no caminho, antes de Jackson, Missisipi. Lá, uma multidão de negros convocada por ele e outros pastores foram em socorro dos viajantes. Atravessando carros na porta de um hospital que os recebeu, e que estava por ser invadido pela Klan, evitaram mais uma tentativa de assasiná-los. A multidão, é preciso de informação para formarmos uma imagem mental correta e justa dos fatos, era composta por mulheres, homens, crianças com seus pais, velhos e toda sorte de gente. Eram advogados, juízes, policiais, pastores e até o dono da mercearia. Absolutamente todos queriam estripar aquela gente, a qualquer custo.

Chamas consomem o Greyhound. A polícia demorou a chegar, os freedom riders escaparam por milagre.

No Mississipi, foram encarcerados sem motivo senão não o de não aceitarem as leis de segragação com o rigor reservado aos condenados à morte, com uma brutalidade sem medida, na famigerada prisão Estadual. Enfim, uma guerra, uma vergonha, uma caçada humana motivada exclusivamente pelo ódio. Só seguiram viagem com a intervenção de tropas federais, que chegaram um pouco tarde mas a tempo de evitar o pior. Não houve vítimas fatais entre os viajantes, mas àquela altura a nação acompanhava o desenrolar de uma viagem que fraturou e expôs ao país o osso que sustenta um valor tão mesquinho e violento.

A única foto que sobrou do brutal ataque no Terminal da Greyhound em Montgomery, Alabama: James Zwerg no hospital, aguardando um médico. Ele abandonou ali a viagem, mas foi substituído por outro voluntário.

Voltando à Oprah, eu enchi o olho d’água ao perceber que aqueles rostos serenos, hoje cinzidos pelo tempo, chagados pela luta cotidiana, não eram em nada diferente ao de pessoas normais, como você e eu. A questão é que eles, ao contrário de mim, deram um passo arriscando suas vidas pelo próximo. E eles conseguiram, venceram. No resto do programa, Oprah se deu ao trabalho ainda de colocar frente a frente um congressista americano conhecido, John Lewis, negro e mebro do primeiro grupo dos Riders, com seu algoz de uma das paradas de ônibus pelo sul selvagem. Olha meu amigo, é chocante. É emocionante. É um pesadelo.

24 de maio, arrumando um jeito de sair do Alabama e chegar até o Missisipi. Kennedy estava de olho e manobrando com os governos locais para que não assasinassem a todos.

Bom, tudo isso eu fui ler depois do programa da Oprah. Sendo honesto? Eu conhecia a foto do Greyhound em chamas, mas não o contexto. Desconhecia o que esse grupo ousou fazer e como isso foi o bastante para acender mais um rastilho de ódio e raiva que explodia na forma de uma coletividade histérica e desajustada em cada cidade. Me surpreendi com mais esta história sobre rodas. Entre tantas, eis mais uma história sobre rodas que precisa ser contada.

A história da primeira viagem está muito bem contada na Wikipedia, onde passei o resto daquela madrugada aprendendo mais sobre esta gente que ousou um dia mudar o mundo. E conseguiu. Virou até documentário, veja o trailler abaixo. Logo na abertura, John Lewis.

Bom, se você leu até aqui e está se perguntando o que isso têm a ver com carros antigos, preciso dizer que eu acho que tudo. Para mim é necessário saber ao máximo que histórias estas cápsulas do tempo escondem, qual o sentido e a emoção que nos entregam, daqueles que viram através do volante. Me incomoda falar sobre automóveis antigos desprovidos de qualquer vínculo com sua origem, assim como se tivessem acabado de ser entregues, sem história sem nada. Como se eles só existissem em Araxá ou Lindóia ou Peable Beach. Bobagem, isso é coisa para alienados e conservadores.

Mas contei também por que um dia eu quis mudar o mundo. Este foi meu erro, eu deveria ter tentado melhorar o pavimento da minha rua, o pronto socorro do bairro e seguir adiante. Eu deveria ter pego um ônibus e tentado dar um papo no prefeito.

A pergunta que ainda se faz nos EUA: você teria embarcado neste ônibus?

Bom, eu também escrevi este post pra escutar boa música. Sem ela, como entrar nessa história? Tô aqui em paz, fisgado pela voz maior da luta pelos direitos civis nos anos 60, meus queridos e amados Staple Singers, a maior banda gospel da história. Ponto. Estou aqui ouvindo a guitarra preciosa do ‘Pop’ Staples, amigo de Robert Johnson nas plantações do Missisipi, e sua filha Mavis Staples, a minha diva maior, cantando uma música que ‘Pops’ fez sobre os Freedom Riders, chamada Freedom Highway. Claro que a música eu já conhecia há mais de 20 anos, mas foi só através da Oprah que eu descobri para que,para quem e quando ela foi escrita. É muita bondade no coração de uma vítima reagir à tanta violência com um chamamento tão doce, silencioso e generoso. Precisamos aprender mais com eles.

Te dedico essa música agora meu amigo, com toda a esperança que habita o profundo em nossas almas, de que um dia este planeta será um lugar melhor para todos nós. Atenção nas imagens que ilustram o vídeo. Começa com a Declaração de Independência e daí por diante você verá.

Freedom Highway, 1964
música e letra por Roebuck “Pop” Staples

Marching on the freedom highway
Marching each and every day
Marching on the freedom highway
Marching each and every day

I made up my mind, and I won’t turn around
I made up my mind, and I won’t turn around

There is just one thing that I can’t understand about friends
Why some folks think freedom is not designed for all men
There are so many people living their lives perplexed
Wondering in their minds what’s gonna happen next

Chorus

Found dead people in the forest(Alternate lyrics: You got your brothers and your sisters in the choir room)
Tallahatchie river and lakes
The whole wide world is wonderin’ what’s wrong with the United States
Yes we want peace if it can be found
We’re gonna stay freedom highway, we’re not gonna turn around
And do you (do you) do you think I voted for the right man
Who said we will over come
I march the freedom highway until the day is done

Chorus

I’m gonna keep on marching on the freedom highway
And I’m not gonna turn around

Acabou não. Se quiser mais, há boas fotos e links para matérias dos principais jornais americanos e o que eles comentaram sobre os 50 anos dos Freedom Riders e sua viagem pelo sul dos Estados Unidos em maio de 1961, aqui neste link. Bruta coleção.

E pra quem quer passear pela América de conversível ou numa Harley, e acha que a Rota 66 não traz emoções fortes o bastante, eis o mapa das viagens dos Freedom Riders, todas elas, em 1961. Com direito a desembraque em Nova Orleans e uns gorós em Tremé, coisa que em Chicago ou LA não têm.

E o racismo? Continua firme e forte: hoje porém mais sofisticado, é um racismo sem racistas.

Abraço!

Anúncios

13 comentários sobre “Freedom Riders, ‘I stand among heroes’

  1. José Edmilson disse:

    Meu caro Nik, parabéns por trazer aos leitores do seu blog e abri espaço para todos em relação ao importante assunto de memória, de história mundial sobre o grupo ativista Freedom Riders (Cavaleiros da Liberdade…) fiquei conhecendo muito mais.

  2. Xracer disse:

    Muito bom esse post, não conhecia essa história… o racismo é sem lógica e mostra a faceta da falta de amor entre os seres humanos.

  3. Nik disse:

    Isso aí, precisamos manter as idéias acesas, vivas. Utopia para o grego era o u-topos, apenas aquilo que ainda não foi posto, colocado, realizado. Não algo impossível, uma quimera. Nessa confusão semântica alguns dos jovens brasileiros desistiram do ideal antes de tentar, do sonho maior, coletivo. Eles nascem derrotados. Triste.

  4. v8andvintage disse:

    Nik:

    Acho que alguma coisa foi filmada (ou re-filmada) pelo Spike Lee, com o Ossie Davis no elenco.Para quem não sabe, Ossie foi casado com Ruby Dee, poetisa e ativista.
    Para conhecê-la, é só assistir o programa (que te recomendei num churrasco na casa do Marcus) “Iconoclasts”, do canal Glitz* (Sky 31).
    O mesmo que vimos o Robert Redford e o Paul Newmann pilotando…

  5. Juarez-MT disse:

    NiK, realmente essa história chega a ser comovente, pois numa época dura de transição, sonhava-se com a liberdade de viver em paz, em que a maioria ainda não conhecia e nem fazia idéia como iria ser, mas queria assim mesmo pois visualizava que seria bom. Até agora temos muitos herois, muitos anônimos, uns esquecidos, outros bem lembrados, e só quem tem sensibilidade histórica homenageia os feitos, sejam jovens ou velhos seres humanos, talvez seja isso que falta para esse mundo ficar um pouco melhor. Quanto a impregnação de história numa lataria, num design, num ronco, confesso que é um forte indício dessa sensibilidade externada pelo inconsciente, e de respeito com o passado que formou o inevitável presente e que já será futuro. Uma salva de palmas pra todos que protagonizam esses ideais.

  6. Francisco José Pellegrino disse:

    O Juarez aí acima esgotou o assunto, mas como bom idoso dou um pitaco…a gente vivenciou estes fatos, não exatamente este que vc focou, mostrava-se abertamente nas TVs pois a dita dura deixava (tinhamos imagens até da Africa do Sul), hj não mudou nada, a violência é menor contra os negros, mas não o preconceito…qualquer pessoa vivendo fora de seu país sente um certo preconceito dos locais, aqui os multiraciais como nós não ligam muito para o assunto….mas o preconceito está no nosso dia a dia…é um assunto dificil de se lidar. Parabens pelo post, vc vai acabar indo trabalhar n’O Globo.

  7. nerddecarro disse:

    Parabéns pelo post.

    Objetos antigos podem trazer lembranças alegras ou tristes. Neste caso, estes antigos ônibus GMC e Flxibles, que foram coadjuvantes neste movimento dos direitos civis, despertam a consciência da eterna luta pela igualdade perante a lei, independente de cor, cultura ou religião.

  8. nanaelsoubaim disse:

    Mais um texto que poderia integrar o livro “O que deu errado na América”.
    Eu integro a horda dos que vêem o carro antigo como parte inalienável de sua época e origem, reconheço suas falhas sem que isto me cegue às suas virtudes. Histórias como esta já não me impressionam, mas minha capacidade de indignação está intacta. Tocaste em “heróis”, pois nós também temos os nossos e eles são sumariamente ignorados pela população; tropas em missão de paz, desavergonhadamente sabotadas pela onu, e missionários religiosos que constroem hospitais e escolas sem terem levado um centavo sequer aos países onde estão. Ambos os grupos assiscando seus pescoços ao contrariar culturas arraigadas, como os Feedon Riders, só que os nossos não têm um Kenned para tentar ajudar. O que deu errado lá, de ourtro modo está dando errado aqui também.

  9. José Avila Ribeiro disse:

    Meu amigo, você é um grande pesquisador, você não para mesmo, não é?
    Continue assim e que DEUS te abençoe.

  10. Paulo Fava disse:

    Parabéns pelo post, curti demais ler esta história. Vim parar aqui depois de assistir uns filmes de blaxploitation em SP. No folder do festival, há uma menção bacana sobre os Freedom Riders. Vou comprar o livro e ler os links deste post. Grande abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s