Como perder o entusiasmo

Eu leio o blog Autoentusiastas há um bom tempo, como talvez você também. Algumas cabeças coroadas escrevendo sobre o que gostam, cada um com sua opinião, o resultado sempre foi bom. De uns tempos pra cá, entretanto, têm me incomodado bastante algumas coisas que leio por lá. E esta me doeu bastante:

Vivemos em tempos difíceis: hoje, não há um homem sequer no planeta que não esteja preocupado com o futuro das gerações vindouras, ameaçado pelo impacto ambiental que nossa reles existência causa ao planeta. Nada perturba mais o sono da população mundial do que imaginar um mundo cada vez mais degradado, com graves prejuízos à qualidade de vida de seus descendentes.

Melhor dizendo: se existe pelo menos um cético em relação a toda essa paranoia ambiental histérica, essa pessoa sou eu. Para mim, a preocupação ambiental nada mais é do que a hipocrisia implícita em um discurso muito bonito e politicamente correto, utilizado hoje (e será pelos próximos anos) como uma das mais promissoras ferramentas de marketing.

Este texto bem conservador foi escrito pelo Felipe Bitu, que conheço só de alguns artigos por aí. Que recebeu o seguinte comentário do estimado Bob Sharp:

Sei que você outros não concordarão, mas para mim motor elétrico só em carrinhos de golfe e de cemitério, ônibus com captação aérea de energia, bonde e trem metropolitano e de longo percurso. Automóvel tem que ter autonomia mínima de 500 quilômetros e poder ser reabastecido de combustível líquido em no máximo 3 minutos. O resto, considero poesia misturada com histeria carbônica e oportunismo mercadológico. Respeito quem adira à nova onda, como o Bitu e seu excelente texto, mas tudo isso me evoca o nome da peça de Shakespeare, “Muito barulho por nada” (“Too much ado about nothing”). Os atuais motores de combustão interna são altamente eficientes e silenciosos e tendem a sê-lo ainda mais. Ter um carro e precisar se preocupar com a bateria de tração não me parece boa e prática solução. Alguém já disse que só há três tipos de mentiroso: 1) o mentiroso; 2) o mentiroso safado; e 3) o fabricante de bateria…

Eu não sei, mas alguma coisa aí eu perdi. Paranóia ambiental histérica? Preocupação ambiental é hipocrisia? E depois o Bob emendando uma sua receita que, se não for acatada, é tudo histeria carbônica e oportunismo mercadológico?

Bicho, o que deu nesses dois? Eu li duas vezes e não acredito que um formador de opinião como o Bob Sharp e um aspirante à esta condição, como o Felipe Bitu, tratem o assunto com tanta simplicidade e incredulidade. Sabe, me parecem os americanos discutindo evolucionismo e criacionismo; ou ainda o discurso dos cientistas pagos pelas petroleiras e suas fundações para divulgarem dados que amenizem na população o sentimento de repulsa aos seus produtos e interesses; ou os ideólogos das companhias de tabaco. Como assim é histeria? Eu sou histérico? Não!

Eu não vou argumentar, seria tolice da minha parte. A história é mais forte do que a opinião dos dois, os fatos muito mais eloquentes. Então o que me incomoda? É que eu gostava e respeitava o AutoEntusiastas, eles tinham minha credibilidade. Agora não mais, e sim eu estou sendo radical, tanto quanto os dois autores citados acima.

Me preocupa, a esta altura do século XXI, ler um senhor como Bob Sharp postular uma causa tão insustentável. E ainda mais ler um jovem que não crê que existe vida fora do mercado, que ignora que foi a sociedade civil, ONGs, cientistas e pensadores independentes que “descobriram” que nosso planeta corre risco, e não a GM, a Chevron ou a Bosch.

O assunto é complexo, suscita várias considerações. Mas quer saber?, não faz sentido para mim desfiar nenhum rosário. O que eu posso dizer a quem ainda quer manter este nosso estilo de vida, reforçando justamente os mecanismos que querem sobreviver às custas da desgraça de todos nós? Nada, absolutamente nada. Eu não quero ter razão, eu não quero dar a última palavra. Mas que eles estão errados, estão.

É preciso ver além do automóvel, do mercado, do sistema. Nada por si é o problema de forma isolada. É tudo, é muito mais do que supomos. Mas definitivamente com pensamentos como este é que não vamos mudar nada.

Espero que não me arrependa de ter escrito sobre isso, mas eu não tinha como deixar passar.

Anúncios

46 comentários sobre “Como perder o entusiasmo

  1. Túllio Franca disse:

    Bom, eu também gosto muito de carros, porém entendo os problemas ambientais que estamos passando hoje em dia e concordo com você! Dizer que não está acontecendo nada lá fora e que podemos continuar com as nossas vidas e velhos hábitos é loucura!
    Abraço!

  2. Francisco disse:

    É bom ver esta “nova” tecnologia da Honda…quanto será que vai custar nos revendedores, minha opinião é que será caríssimo como tudo o que é produzido por esta empresa por aqui…Ainda tá dificil na minha cabeça esta história…a gente anda de motorzão V8 um dia por semana e por poucas horas,já coloquei injeção eletronica para tentar diminuir o impacto..o que vou fazer mais ?????, a barata será motor a ar com injeção também…..reciclamos tudo aqui na empresa e em casa ! o que mais posso fazer ?

  3. Túllio Franca disse:

    Eu não sou contra os veículos elétricos, mas penso que ainda falta melhorar um pouco mais essa tecnologia, principalmente na questão de autonomia e tempo de recarga. Mas um tipo de veículo que creio ser por enquanto muito mais vantajoso seja os veículos híbridos, pois são muito menos poluentes e mesmo assim não perdem sua eficiência! Bom, é só minha opinião.
    Abraço.

  4. Nikollas Ramos disse:

    Chico, o problema é grande. É do sistema, da forma que produzimos riqueza. Não é você ou eu que temos muito a fazer, não este motor ou aquele. Claro que podemos fazer muito. Aqui na empresa conseguimos o FSC, custou muito, mas muito caro, mas tinha que ser feito. Veja aí o tal do selo que exigem de vocês em SP para os carros. Isso resolve o quê? Eu olho pro Tietê e me pergunto se…
    Agora, é duro ler alguém de forma tão contundente se opor às inovações. Sim, custa caro, sim é marketing, mas a Honda está fazendo sua parte. Como disse seu CEO na época do carrinho verde do Barrichelo, lembra? “Nós queremos ser uma empresa que os clientes desejem que continue viva e produzindo para eles”. Isso é sério, ainda mais vindo de um japonês.
    Sabe, o Bob e o Bitu me lembram aqueles que, nos anos 20, era ferrenhos defensores dos carros à vapor, contrários aos motores à gasolina. Ignorando a necessidade de buscar alternativas, eles estão apostando no vermelho, e vai dar preto. Vai mudar tudo, por bem ou por mal.
    Me incomoda esse sentimento egoísta mesmo de que não estou nem aí para o meio ambiente. Eu estou no mesmo planeta que eles e sinceramente não gosto nada do que estou vendo, quero crer que um mundo melhor será possível. Antes que seja tarde.
    O Bob me parece pensando de mais em carros, motores – ele é da indústria. E o problema é maior. O que diria ele da questão da água potável? Os motores resolvem?

  5. James disse:

    Não sou um especialista em automóveis, mas sei que os métodos para se produzir um carro elétrico ou híbrido poluem tanto quanto um auto com motor a combustão, sem falar da energia para recarregar as baterias que pode vir de usinas nucleares, termoelétricas e hidroelétricas que causam grande impacto ambiental. Diante da minha ignorância automobilística vejo que essas tecnologias estão caminhando para aumentar a eficiência do automóvel, não para salvar o planeta. O que poderia ajudar realmente o planeta seria o transporte coletivo elétrico ue diminuiria o número de carros na rua e a demanda para produzir veículos iria cair consequentemente diminuindo a poluição na produção do automóvel. Mas isso não daria tanto lucro a indústria, poucas pessoas sacrificariam seu conforto em nome do futuro e o governo pouco se importa com transporte público. Senhor Nikollas não precisa ser tão radical o Autoentusiastas é um bom blog e cada um tem sua opinião.

  6. Julio Augusto Rocha Paes disse:

    Nikollas, embora a questão ambiental seja um assunto muito sério, não deixa de ter graça a simplicidade de certas pessoas que acreditam que do jeito que vai está bom. Resido próximo a Av.Nações Unidas em S.Paulo (Av. Marginal do rio Pinheiros) e embora seja enorme pista expressa, não consegue mais dar conta em certos horários dos congestionamentos e, fico sempre pensando como se fará para futuro próximo, para resolver o assentamento de novas residências no entôrno e o constante aumento do número de veículos. Como disse o James acima, o transporte coletivo seria muito interessante, mas essa mesma avenida já possui um trem moderno e eficaz que não está conseguindo mais transportar com certo confôrto tantos passageiros. Chega a ser assustador o crescimento da população e dos automóveis em S.Paulo e, isso não têm nenhuma qualidade de vida, pelo contrário faz com que tenhamos todos unidos procurar soluções de transportes limpos e, preservar o meio ambiente em todosos lugares sem excessão. Nikollas, você nunca se arrependerá do que disse. A única coisa certa para o futuro da humanidade é preservar o nosso planeta. Um abraço.

  7. Flávio Furtado disse:

    Bitu não é aquele formigão com asa que muita gente come com farofa no interior?? E Bob, não é aquele bagulho de enrolar cabelo de mulher?? Então, sô…

    Bem, ao que interessa: toda vez que o home lutou contra a tecnologia, PERDEU!!! Só para dar uma viajadinha…

    …num futuro não muito distante, chego eu pilotando meu XPTO-Híbrido, entro num estacionamento novo no Centro do Rio e pergunto:

    – Qual o preço?

    – Vaga sem tomada elétrica é 2 “real” por hora, com tomada é 4.

  8. Nikollas Ramos disse:

    James e Julio, é isso: carros são parte do problema. Defendê-los ou acusá-los solitariamente é uma forma simplista, egoísta e errada de abordar o assunto. É mais, muito mais, e torná-los menos dependentes do petróleo e cad dia menos poluentes é o caminho. Poluir é condição da produção desde a revolução dos ingleses. Não vamos romper com isso com esta ou aquea tecnologia, mas iniciativas como esta apontam o futuro.

  9. Bob Sharp disse:

    Caro Nikollas,
    Fiquei chateado de você não ter gostado do que o Bitu e eu escrevemos, pois a intenção era mostrar o exagero que está ocorrendo nesta questão de automóveis x meio ambiente.
    Talvez você não saiba que de todo o CO2 emitido, e este gás é apenas um dos causadores do efeito estufa – há o metano, que agride ainda mais – apenas 12% cabe aos automóveis e comerciais leves. Há um vasto campo para desenvolver os motores de combustão interna no sentido de emitirem menos CO2. Você poder ver no AUTOentusiastas post meu sobre o Fiat 500 TwinAir, como um pequeno motor de dois cilindros de 845 cm³ turbo que desenvolve 85 cv (como o nosso 1,4 do novo Uno) e lança apenas 93 g/km de CO2. O resto da poluição que conhecemos, o monóxido de carbono, os hidrocarbonetos e os óxidos de nitrogênio estào totalmente dominados e não preocupam mais. Os carros atuais estão incrivelmente limpos do ponto de vista do meio ambiente. Assim, todas as mudanças que se anunciam, essa eletrificação desenfreada, não tem razão de ser e, pior, pode causar um desequilíbrio na produção e demanda de energia elétrica que não está sendo considerada, capaz de causar um estrago considerável, seja na economia, seja no próprio meio ambiente. Espero que entenda./Um abraço, Bob Sharp

  10. Rafael Bruno disse:

    No quesito MOTOR, CARRO, eu concordo com o Bob…porém no ambiental já discordo dele.

    É fácil perceber a poluição. Há 4,5 anos atrás, nesta época aqui em SP pelo menos, era um calor de rachar. Hoje está chovendo e fazendo frio…isso quando no mesmo dia não faz calor, chuva, frio, granizo, etc.

    Mas é fácil culparmos os carros para isso. Vacas também poluem com sua flatulência, cigarros, etc etc.

  11. felipe disse:

    Tb sou leitor dos autoentusiastas há algum tempo e não é de agora que me incomodo com certas opniões ali postadas em especial do Sr. Bob que se acha a última bolacha do pacote!!!

  12. v8andvintage disse:

    Algumas perguntas:

    1 – A autonomia do carro elétrico continua baixa. Vamos até Curitiba. Aonde vamos carregar?
    2 – Essa bateria tem vida útil. O plano de troca e descarte continua insipiente.
    3 – Onibus e carro elétrico, para mim são fantásticos na cidade. A Viação Fortaleza pode comprar meia dúzia deles, diminuiria o barulho e a poluição de Icaraí. Depois de 4 ou 5 horas, carregaria aonde? No Plaza?
    4 – Com os congestionamentos da cidade hoje, corre o risco de termos um ônibus parado por falta de energia no meio de uma avenida…
    5 – Existe sim uma histeria sobre o meio ambiente, mas temos de separar a informação útil do factóide.
    6 – Toda essa conversa é maravilhosa, pois assim desenvolvemos motores à combustão + eficientes, assim como os elétricos.
    7 – Que muitas empresas estão apresentando seus carro hibridos para “jogar pra galera”, isso tem…
    8 – Conheço pessoas (muito próximas) que só fazem as coisas de carro. Depois reclamam do preço da gasolina e do colesterol!

    Na verdade, eu adoraria trabalhar de bicicleta. Nem carro, nem ônibus, nem charrete!

    Quem me conhece, sabe como sou partidário da magrela e uso o máximo que posso.

  13. Nikollas Ramos disse:

    Bob, agradeço a visita e o comentário. Seja bem vindo, sempre.
    Saiba que eu também fiquei chateado, principalmente com a sua opinião. É que minha expectativa é grande em relação aos homens de sua geração. Eu não vejo como se opor à necessidade premente de repensar nosso estilo de vida, principalmente por quem foi testemunha ocular das profundas alterações por que passou o meio ambiente, nas últimas décadas, como o senhor, em que pese seu direito sagrado de ter as próprias opiniões. E é nesse sentido que eu achei que o artigo e algumas opiniões que se seguiram – a sua principalmente – podem dar a entender que escamoteiam a perigosa premissa de que o aquecimento global é uma opinião e que por isso, pode ser obliterada.
    Eu sei que o senhor não é um alienado da questão ambiental e espero que compreenda que eu também não sou um radical ingênuo que crê em receitas milagrosas. Na verdade, sou um grande pessimista que não crê que possamos minorar os efeitos do aquecimento global antes que ele nos afete ainda mais. Muito mais. Assim, meu desapontamento decorre daquilo que dizia meu avô: em velório, não se conta piada. E do jeito que pensa Bitu e também considerando a sua opinião, sendo vocês as cabeças por trás do Autoentusiastas, eu acho que vocês deveriam ter mais zelo com estas discussões. Fiquem com os carros, os motores, os números. Falar do planeta é falar sobre mim e meus filhos. E isso me tira o ânimo, sabe?
    Abraço fraterno, Nik.

  14. v8andvintage disse:

    Nik:

    Vou contar uma coisa pessoal. Nunca tive problemas respiratórios, apesar do meu peso e que, também, não sou mais garoto.
    Mas recentemente percebi uma mudança no meu corpo. Eu tenho acordado à noite com o ruido da minha própria respiração. Não é ronco, simplesmente minhas vias aéreas estão resecadas.
    Será a idade? Será a poluição? Um conjunto delas? Seja lá qual for a resposta, me assusta.
    Por quê em meados de novembro estamos com uma temperatura média de 23graus? Eu deveria estar pingando de suor hoje, mas não é isso que acontece.
    É claro que estamos assistindo um mudança climática, não temos certeza aonde vamos parar – o que podemos é equilibrar um pouco essa receita.
    Não acho o carro elétrico uma solução; na verdade, hoje, acho uma idéia de jerico. Tivemos problemas recentes de distribuição de energia e, por muito pouco, de geração. Podemos assistir todo esse imbroglio sobre nova hidrelétricas, que inundam planices, retiram moradores, tem um impacto ambiental altíssimo e a contrapartida é risível!
    Vamos montar termoelétricas! Usando que combustível, cara-pálida? GN, BPF, bagaço de cana, peido?
    Vamos montar termonucleares! Tem certeza disso?
    O ideal seria celula solar, carregando baterias. Até porque somente a célula não faz o carro andar de noite…
    E o hidrogênio? O produto final da combustão é água! Vocês já viram como funciona o gerador de Hidrogênio e o risco de sua operação?

    Já viram como funciona o gás proveniente de bactérias biodigestoras? É sensacional pela simplicidade e diminui consideravelmente a contaminação do solo e águas. Cadê então?

    Pessoal: acredito no convívio de todos esses combustíveis ao mesmo tempo, mas procurar o máximo da eficiência, racionalidade no uso, praticidade, viabilidade econômica, etc…

  15. Luiz Felipe disse:

    Caro Nik, sou capaz de entender o desabafo do Sharp. Realmente, em alguns momentos pode-se notar a influência do mercado; o que não é de se surpreender ou afinal não foi isso que aconteceu desde sempre? E foi isso que nos deixou, hoje, meio perdidos quando de repente o petróleo virou bandido. Foi visando o interesse de poucos que pouco se fez em busca do motor limpo até poucos anos atrás. E agora surge um boom dos carros elétricos. O salão de Paris foi uma festa de tomadas plugadas. Mas será que esse carro é realmente limpo? O Sarkozy disse que sim mas será que ele não sabe o que está atrás daquela tomada? O que realmente todos parecem fazer questão de esquecer e que pra carregar um carro que anda zunindo e sem sair fumaça precisa-se antes, gerar a eletricidade. Não há fórmula mágica. E da maneira que se encontram as matrizes energéticas dos principais poluidores, está se trocando seis por meia dúzia. É isso aí, enquanto não chega o capacitor de fluxo, ficamos aguardando. Um grande abraço.

  16. Francisco disse:

    Legal, ótimas opiniões, a resposta do Bob sempre precisa nos dados ….como vc mesmo disse “o problema é bem maior que os automóveis”….os rios fétidos, podres, a ocupação desenfreada das grandes cidades, a necessidade se obter/tratar a água, os esgotos, a opção rodoviária para transporte de mercadorias por este país continental, a má educação da própria população com respeito à reciclagem do lixo residencial.. aqui em S.André tem COLETA SELETIVA em grande parte da cidade, porém os marreteiros passam antes do carro coletor da prefeitura, “escolhem” o que querem de mais valioso do lixo (principalmente latas de aluminio) e o resto de menor valor deixam por ali….e assim a Estação de Reciclagem da Prefeitura que deveria gerar renda para a Cooperativa dos trabalhadores não funciona a contento….este teu post vai ficar na berlinda uns dois meses, pois o assunto é extenso..

  17. Gustavo disse:

    Prezado Nikolas,

    acompanho seu blog há algum tempo, mas não tinha deixado comentário ainda, mas esse post me animou pq tenho acompanhado o assunto e sou apaixonado por automobilismo como 98% dos engenheiros mecânicos.
    Na minha humilde opinião, pode ter havido exagero do senhor com relação ao post do Sr. Bob Sharp. Acho que nem tanto ao céu nem tanto à terra.
    Sou crente das mudanças climáticas e, por isso, acredito que temos que mudar MUITO nosso estilo de vida! Uma das primeiras medidas é, sem dúvida, um cuidado com o uso do automóvel. Um problemaço que tem como mais simples solução a ampliação do transporte público, também já saturado em várias das grandes cidades, inclusive algumas com um puta sistema como Londres e Paris. Mas não há como negar que existe um exagero mercadológico aí. A questão, ao meu ver, é que transformaram o automóvel no maior vilão do mundo no diz respeito à poluição e às mudanças climáticas, qdo eu acho que não é o único nem o maior. Isso sim gerou uma histeria. No breve período que passei morando no exterior ano passado, vendo as campanhas locais, tinha vezes que me parecia que qualquer dia ia ter uma manifestação de radicais jogando ovos em carros na rua. Acho que é isso a que o Bob se refere.
    A indústria automobilística, que de boba não tem nada (apesar de parecer estúpida as vezes) percebeu esse movimento e sentiu que, antes de mais nada, precisava se manter viva para poder entender o que fazer. Se manter viva, passa por preservar sua imagem. Assim vem os modismos, as respostas simples para problemas complexos. Temos a solução! O carro elétrico! Olha como eu sou bonzinho, cool, antenado, whatever! Na verdade, nada mais é do que uma medida para se manter viva. O que pode ser bom e é legítimo. Assim aparecem boas inovações. Mas acima de tudo ela se mantem vendendo transporte individual, que ocupa tanto espaço qto qualquer carro. Pra mim, temos um problema maior de espaço do que poluição a ser resolvido. Temos mais de cem anos de veículos a combustão. Será que não foi tempo suficiente para a indústria ter pensado em soluções cada vez melhores para esses motores? Será que os Governos mundo afora (principalmente EUA) não poderiam ter dado estímulo à veículos menores do que manter os V8 com um único cidadão indo ao trabalho? Será que a associação de tecnologias (híbridos) não poderia estar mto mais evoluída? Eu não tenho a menor dúvida de que sim. Por que não o fizeram? Porque a indústria faz o lobby daquilo que quer vender e ponto. Nos EUA é muito melhor uma GM da vida continuar vendendo V8 da década de 60, aumentar margem e economizar em P&D. A mesma GM, Ford, Toyota, Honda, VW que durante anos te convenceu de que vc precisava de carros cada vez mais potentes, agora vai te dizer que vc é um vilão fdp que polui que nem um desgraçado pq quer ir de carro para Petrópolis visitar um amigo. Os marqueteiros vão te dizer que você não é antenado, que é um antiquado, um dinossauro, um assassino pra te vender um carro elétrico com 500 baterias que ela mesma não sabe o que fazer quando acabar a vida útil.
    Repito que não sou um discrente das questões climáticas. Mto longe disso. Acabei de chegar da Holanda, onde fui visitar os diques e vi a obra gigantesca que eles fizeram para suportar o aumento do nível dos oceanos. Impressionante!
    Isso tudo para dizer que acredito que tudo que o Sr. Bob quis foi alertar para o excesso de alarmismo que, as vezes, leva a irracionalidade.
    Acredito muito na tecnologia híbrida, elétrica, seja qual for a solução, mas é parte de um processo que precisa chegar ao razoável. De repente, para algumas aplicações específicas, para países com demandas diferentes e assim vai.
    Acho que, por enquanto, o caminho mais razoável é melhorar agressivamenete o que temos, enquanto buscamos melhores soluções e não simplesmente ir para uma discussão simples de elétrico x combustão. Tem que caminhar junto. O que não pode é cada norte americano montado num carro de 2 toneladas com um V8 para ir a padaria da esquina. Isso o mundo não aguenta. Assim como acho que não aguenta cada americano montado num carro elétrico de 1,2 ton sendo um terço de bateria que não sabemos o que faremos.
    Tem um tempo, li um estudo, se não me engano da OECD, mostrando que se o automóvel típico americano fosse substituída pelo veículo padrão do europeu, reduzir-se-ia o consumo anual de petróleo em 1/3! Repare. Só trocando o tipo de veículo, mantendo-se a frota!
    Enfim, acho que se é pra pensar em longo prazo, GM, VW, Toyota e cia. tem que pensar em mudança de forma de transporte e o que elas querem ser nesse cenário. Pensar que vão manter o ritmo de crescimento ad eternum vendendo veículos como conhecemos hoje, seja elétrico, híbrido, combustão me parece obtuso. Mas tenho certeza que são mais espertos que eu.
    A esperteza do momento é me convencer que sou mau pq tenho um veículo pra passear. Um dinossauro. A Apple faz isso mto bem. Quem não tem Mac é um dinossauro.
    Desculpe o tamanho do comentário, mas o assunto é fascinante.

    Parabens pelo blog! Continuarei sempre visitando.

    Abraço,

    Gustavo

  18. nanaelsoubaim disse:

    Nikolino, meu filho, há uma lição que aprendi quando não tinha sequer espinhas, e aprendi da forma mais dura possível; Não depositar esperanças em opiniões alheias, por mais que o alheio mereça teu repeito e admiração. Opiniões servem, no máximo, como pontos de referência, pistas para uma investigação. Quanto aos quatro links acima, são no máximo pistas. Quando quero saber de onde saiu a pedra que quebrou minha vidraça, eu investigo, estudo a trajetória da pedra e sua massa para deduzir de onde ela veio, não importa o que os outros estejam bradando ao meu redor. Não ajo com entusiasmo, o deixo para quando tiver algo de concreto em mãos, para que não atrapalhe meu raciocínio… Já fui ateu, ao menos para isto me serviu. Quanto à verdade, a única e absoluta que existe é o ovo quebrado no chão, o resto é provavelmente especulação. Foi assim que abri aquele blog.

  19. v8andvintage disse:

    Nanael:

    Esses link exemplificam como temos fontes diferentes apresentando resultados diferentes da mesma coisa.

  20. Nikollas Ramos disse:

    Gustavo, belo comentário, gostei muito.

    Veja, sou de outra área de conhecimento, as ditas humanas. Lá aprendi o quanto o discurso instituído se apropria daquilo que a priori o destrói para, em seguida, o devolver na forma de conceitos devidamente ajustados aos seus interesses – geralmente apresentados como revolucionários e definitivos. Em resumo, marketing pra combater a opinião contrária, anulando seus efeitos e reenquandrando a iniciativa no seu campo de saber, poder e interesses, como é o caso dos novos carros híbridos. Sim, pura balela, eu não acho o contrário. Mas será tentado, até quando for necessário. Aí será imposto. O que faremos com as baterias? bom, uma opção já deram, li em o Globo outro dia: enviar todas para o espaço sideral. Sim, é sério.

    Esses números do consumo americano de petróleo eu conheço, são fascinantes. E indigestos.

    Pegando o gancho do Nanael, que como nós todos busca ver a cena toda, recomendo aos amigos uma leitura muito reveladora, assaz atordoante, que é o livro Petróleo, do Daniel Yergin, ganhador de um Pullitzer e só recentemente reeditado por aqui. Amigos, leiam. Eis o link:
    http://www.travessa.com.br/O_PETROLEO_UMA_HISTORIA_MUNDIAL_DE_CONQUISTAS_PODER_E_DINHEIRO/artigo/21373754-caa1-4892-81be-d66ee6c4bd67

  21. Rui Pastor disse:

    Um blog, na minha modesta opinião, serve para isso mesmo: debate de idéias, opiniões divergentes. Vejam, ao contrário de muitos outros blog, este post não teve nenhum momento de falta de educação! Só isso já é fantástico. Parabens ao blog e a todos aqueles que, de forma civilizada colocaram sua opinião neste post, que já considero o melhor do ano.
    Nikolas, forte abraço,

    Rui Pastor

  22. Gustavo disse:

    Caro Rui,

    concordo em gênero, número e grau. Blog é pra isso mesmo. Opinião.
    Por isso não entendo quem quer decidir o que o blogueiro deve colocar ou não!
    Prezado Nikollas, obrigado pela resposta. Esse lirvo tá na minha lista há um tempo.
    Vou ler assim que possível!

    Abraços a todos

  23. Nikollas Ramos disse:

    Rui, grosseria aqui nem pensar. Só idéias. Como dizia o falecido Tancredo: “quem briga são as idéias, não os homens!” Grande vaselina esse mineiro…

  24. Fernando Rodrigues disse:

    Como li no primeiro comentário,fingir que não está acontecendo nada no nosso mundo é loucura,as diferenças climáticas,a deformidade de paisagens que antes eram deslumbrantes e hoje simplesmente não existem,sou a favor de melhorias nos carros,como os elétricos,mas afirmo que ter um carro elétrico como os que as fábricas apresentam hoje em dia é muito insatisfatório,rodar apenas 150 km com uma recarga que demora,8,9 horas para recarregar é muito tempo pra pouco rodagem…acredito que em breve num futuro não tão distante,essas baterias terão uma autonomia melhor,mas que eu prefiro um carro a combustão eu prefiro…mas se o mundo mudar,temos que mudar junto com ele.

  25. nanaelsoubaim disse:

    Eu prefiro os ultracapacitores, mas as baterias ainda são muito mais populares. Quanto aos V8 dos nossos corações, dá para fazer muita cousa, não precisamos abrir mão deles.

  26. Luiz MelloSampayo disse:

    Eu não leio o blog Autoentusiastas há um bom tempo como meu caro amigo Nikollas. De uns tempos para cá, entretanto, tenho recebido bastante emails deles, onde leio algumas coisas e o resultado uptonowalmost sempre foi bom. Com a oportuna inclusão desse instigante post na sala do carrosantigos que com nada se intimida, os importantes comentários dos senhores Sharp e Bitú, citados na abertura, foram enriquecidos. Essas duas notas de amplo expectro que em tão poucas linhas tem opinião formada sobre tudo que se refere a assunto tão complexo, certamente mais por minha ignorancia, não me doeram. No entanto fiquei confuso e curioso. Do primeiro comentário, me veio a mente um ditado: “onde há fumaça, há fogo”, o problema eh avaliar a intensidade, atacar com competencia e sem histerismos prevenir o alastramento. Do segundo, limito-me a saber: se o mentiroso do item 1 seria diferente ao do 2, e qt ao mencionado no 3, qual o argumento técnico para simplismente assim qualificá-lo??
    Nikollas, seu avô estava certo “em velório não se conta piada”, mas pode-se servir cafézinho e bater um bom papo e vc conseguiu essa proeza. O assunto desse post reforça o motivo da constante curva ascendente do seu blog, cujo nome sugere com clareza, retrospecto e vinculo ao meio automotivo. Para não fugir desse norte, lembro: Brucutú resolvia seu problema de locomoção conduzindo um dinosauro, apesar dq ouví dizer que os dois não viveram na mesma era. Com o andor e da mesma forma, tbm não seremos contemporaneos de meio de transporte que no seu bojo não traga algum contributo nocivo ao meio ambiente. Porém sejamos otimistas, pq sabedoria&tecnologia andam juntas; assim como, os que decidem e os que não, sabem que estão no mesmo barco e o mar estah bravio. Os alarmes, mt difundidos atualmente, mesmo que exagerados, passiveis de críticas e da má fé de militantes arrivistas, estão ao menos concientizando as novas gerações e são reconhecidos como o contraponto aos interesses de ordem econômica de alguns segmentos por demais conservadores. Ainda sobre esse tema, oportunamente vou remeter para o file do blog a foto de um veiculo automotor, que usávamos por aquí desde os anos 50 e que não poluia absolutamente nada. Fraterno Ab

  27. Sergio Luiz Sant Anna disse:

    Caro Nikollas,

    A Honda já havia demonstrado alguma preocupação ao oferecer o Civic nos anos 70 que já atendiam as normas contra emissões, enquanto as “quatro grandes” choravam e faziam pirraça. O que ocorre hoje em dia é a “invasão” do movimento verde de pessoas com ideologias esquerdistas, daí a histeria já que se for instituído tudo o que eles pretendem para acabar com as emissões de CO², a chamada “indústria do carbono” teria que fechar as portas. Lembre que os hidrocarbonetos permitem uma infindável produção de materiais diferentes para cada tipo de aplicação. Uma boa maneira de se derrubar as indústrias “capitalistas” é forçá-las a uma mudança radical de métodos de produção ou serem obrigadas a se retirarem do mercado. Se você retirar todos os motoristas de carros 1.0 prata do trânsito, pode ter certeza que haverá maior fluidez nas principais artérias metropolitana. O que acontece é que esse tipo de motorista “foge” do transporte coletivo que é cada vez mais deficitário e desconfortável, além da perda de tempo e qualidade de vida. Os partidários das magrelas querem usá-las o tempo todo, mas bicicletas só são boas para percursos curtos, como até a padaria, por exemplo. Os veículos elétricos só são bons para o uso urbano enquanto não resolverem o problema de recarga e autonomia. A Renault Nissan já pensam em um posto de reabastecimento que ia trocar as baterias em torno dos mesmo 3 minutos exigidos pelo Bob, o que diminuiria e muito a perda de tempo por recarga. O detalhe é que o grupo pretende vender o carro e fazer o leasing das baterias, o que diminuiria o custo inicial do carro elétrico. Mesmo shoppings e estacionamentos públicos poderiam oferecer estações de recarga rápida (entre 30m e 1h), já que é difícil alguém parar nesses lugares por menos de 15 minutos. O nitrogênio é caro que doi e sua extração da natureza ainda é difícil. No momento, a proposta mais viável aqui é algum híbrido a álcool, lembrando que nossa cadeia produtiva (do produtor ao consumidor) “absorve” 10% do carbono que seria emitido por um carro equivalente a gasolina, contra a neutralização de 90% do carbono com o uso do E85 nos EUA e Europa. O problema do chamado aquecimento global é que não há provas conclusivas de que esse aquecimento é mesmo causado pelo homem, sem contar fatores como as chamadas “ilhas de calor”, já que a ausência de árvores e a concretização do espaço urbano aumenta a temperatura da área e conseqüentemente a dos termômetros que medem a temperatura de uma região, já que a maioria está localizada dentro dos centros urbanos. E a maioria dos ecologistas e defensores da restrição das emissões do carbono costumam “inflar” os números e torcer os dados para deixar o cenário mais negro do que ele realmente é.

  28. Felipe Bitu disse:

    Nikollas, boa noite.

    Como você percebeu, fiquei entusiasmado ao avaliar a tecnologia IMA da Honda, mas não me preocupo com nenhuma questão ambiental por uma razão bem simples: é apenas uma visão mercadológica.

    Não se iluda: o que importa mesmo é produzir e vender um número cada vez maior de produtos que supostamente não são agressivos ao meio ambiente. Nenhum fabricante de automóveis quer ter sua imagem associada a um produto poluente, mesmo sabendo que nenhum cliente está disposto a abrir mão das comodidades da vida moderna.

    O “consumismo green” é prejudicial ao meio-ambiente e ninguém discute isso. Não há escapatória: o desenvolvimento humano deixará marcas profundas e indeléveis no meio ambiente, por mais ecológico que você tente ser.

    Quem não estiver contente que volte para o meio do mato e seja feliz com seu novo estilo de vida. Mas por favor, não arranque goiabas da goiabeira, pegue apenas aquelas que já estão caídas no chão. E não se atreva a matar um bichinho qualquer que achou a goiaba antes de você, pense sempre no impacto ambiental que você causará ao retirá-lo do ecossistema.

    Não acredito na influência humana no aquecimento global e também não acredito em uma porrada de estudos suspeitos que tentam a todo tempo me dizer que eu vou acabar com o planeta. Considerando que eu troco de carro a cada 10 anos, de celular a cada 5 anos (ou mais, uso até acabar mesmo), que ando muito de bicicleta e que uso meus carros em um ou dois dias da semana, minha “cota de emissões” está bem baixa.

    Preciso de um bom V8 movido a gasolina para me equiparar a muito eco-chato poluidor por aí.

    Acredito sim no fim do domínio do motor de combustão interna, daqui a uns 50 ou 60 anos. Se eu estiver vivo, estarei resmungando (como sempre faço), mas meus filhos e netos estarão curtindo o entusiasmo automobilístico a bordo de carros elétricos ou mesmo de tração animal (sabe-se lá quais serão os rumos da humanidade).

    Lembre-se também que ninguém é cético para sempre. O físico Max Planck, ganhador do Prêmio Nobel, foi muito feliz em sua afirmação: “Uma nova verdade científica não triunfa por convencer seus opositores nem por fazê-los ver a luz, mas sim porque seus opositores acabam morrendo e a nova geração já surge familiarizada com ela”

    Que as novas gerações saibam aproveitar com sapiência todo o progresso conquistado pela humanidade.

    FB

  29. Nikollas Ramos disse:

    Felipe, seja bem vindo.

    Sobre sua opinião, reconheço que admiro tanta certeza e segurança sobre qualquer assunto. Numa questão com tanto em jogo, sou mais medroso, digo, cauteloso. Quanto mais leio e medito sobre nossa existência, este planeta e a relação tênue que a todos une, mais percebo o tanto que ainda precisamos aprender (ou relembrar?) sobre o que estamos realmente assistindo e o que está sendo efetivamente ameaçado. Minha certeza única é de que ultrapassamos a muito o limite do equilíbrio. Ou como disse alguém, o tempo possível de ser suportado somente pela esperança.

    Acho também que muito da informação e opiniões que nos chegam hoje em dia na verdade são os feitiços das Górgonas modernas, que nos transformam em pedra uma vez seduzidos por seus encantos. E não adianta cortar-lhes a cabeça, a maldição sobrevive ao golpe. Difícil pois é saber o que não é embuste, prevaricação ou ignorância.

    Ontem a noite, após ler seu comentário, prescindo relembrar os fundamentos da minha “conscicência ecológia” (conforme discutidos por Leonardo Boff, em “Ecologia social em face da pobreza e da exclusão”, Ed. Vozes), fui procurar alento na famosa carta do cacique Seattle. Já leu? Esta carta na verdade foi um pronunciamento de um líder indígena norte-americano pelos idos de 1850, quando tentaram comprar-lhe a terra de seu povo. O texto foi acrescido de alguns fragmentos ao longo do tempo, é impossível mesmo resgatar-lhe a originalidade. Mas nem por isso ele deixa de trazer sua essência e suas verdades.

    Na certeza de que minhas palavras são frágeis diante de tão vasto testemunho, reproduzo-a aqui, na esperança de contribuir para o enriquecimento do nosso precioso debate.

    “O pronunciamento do cacique Seattle”

    (discurso pronunciado após a fala do encarregado de negócios indígenas do governo norte-americano haver dado a entender que desejava adquirir as terras de sua tribo Duwamish).

    O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.

    Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.

    Minhas palavras são como as estrelas que nunca empalidecem.

    Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.

    O homem branco esquece a sua terra natal, quando – depois de morto – vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia – são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem – todos pertencem à mesma família.

    Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.

    Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar d’água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão.

    Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe – a terra – e seu irmão – o céu – como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.

    Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.

    Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das assa de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro.

    O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum – os animais, as árvores, o homem.

    O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres.

    Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.

    Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós – os índios) matamos apenas para o sustento de nossa vida.

    O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.

    Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra – fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.

    De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.

    Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias – eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará, para chorar sobre os túmulos de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

    Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios desejos.

    Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será, quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.

    Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver o nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.

    Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Preteje-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse: E com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração – conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.

    Fonte: http://www.ufpa.br/permacultura/carta_cacique.htm
    Veja também:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Chief_Seattle
    http://www.chiefseattle.com/history/chiefseattle/speech/speech.htm

  30. Sabrina Paesler disse:

    Bom, discussão das boas! O fato e que: me deixa de cabelo em pe alguém dizer que preservar o meio ambiente e estratégia de marketing! Nao importam os contextos, as tecnologias existentes e nem a razão pela qual o mercado explora este “filão”. O meio ambiente esta aí sendo destruído diariamente, fato documentado exaustivamente, então se trocar a injeção eletrônica do carro possibilta conceder ao planeta mais 1 segundo de vida ja valeu a pena! Se desfazer da luta ambiental hoje e tao feio quanto preconceito racial, antigo e demode. Enfim, vamos amar os carros, mas sempre cientes de que o nosso prazer TEM que terminar aonde começa a destruição do planeta aonde mora o meu e tantos outros filhos por aí! Beijossss

  31. Pedro Navalha disse:

    Se eu tivesse o dom de escrever tão bem quanto o Felipe Bitu, escreveria algo parecido. De todas as opiniões aqui postadas, a dele é uma das mais racionais, apesar de não agradar a maioria, que infelizmente acha que pode fazer algo para mudar o mundo…

    Só o fato de existirmos, de termos filhos, de consumir esse monte de coisas que nos empurram goela abaixo, já estamos todos nós contribuindo para o fim do planeta Terra. As coisas só começariam a melhorar a partir do momento que houvesse menos gente e menos consumo no planeta, mas isso claro, sabemos que nunca acontecerá. E assim, como uma grande praga de gafanhotos, cresceremos de tal maneira, que acabaremos por consumir tudo que existe no planeta. Quem sabe até lá não teremos naves para colonizar outros mundos e também acabar com eles, não é mesmo???

    Apesar que de qualquer modo, um dia o planeta Terra será varrido do mapa mesmo, seja por nossas mãos (não creio) ou por algum cataclisma cósmico qualquer.

  32. Sabrina Paesler disse:

    Pedro Navalha, cruz credo! A gente sabe de tudo isso, mas ninguém deixa de ter filhos porque o mundo vai acabar, ninguém dá um tiro na cabeça porque o mundo vai acabar, enfim, porque iríamos acabar de destruir o planeta só porque o mundo vai acabar de qualquer jeito. Sua teoria traz muitas implicações ruins para a sua própria existência, pensa só…

  33. Pedro Navalha disse:

    Sabrina, não sou tão pessimista assim não!

    Só tentei dizer que a nossa presença, aqui no planeta, já causa uma série de prejuízos ao meio ambiente. É lógico que eu tento levar uma vida normal, mas devemos repensar certos hábitos. Eu também não troco de carro sem necessidade, costumo utilizar meus objetos durante o maior tempo possível, jogar o lixo em local adequado, etc, etc.

    Atitudes que por si só já poupariam bastante a natureza, mas que deveriam ser hábito de todos, o que infelizmente não está ocorrendo, pois as pessoas andam cada vez mais materialistas e consumistas. O que adianta trocar seu carro antigo por um modelo híbrido, como fizeram aos montes nos EUA se o antigo descartado acabará causando também impacto ambiental?

    Mas é isso aí, não se assuste não que o planeta Terra ainda sobreviverá muito tempo, provavelmente além da própria raça humana…

  34. junior disse:

    Nada substituirá o prazer de se usar motores a combustão, mas a tendência é a migração para combustíveis limpos, mesmo indo contra as grandes empresas de petróleo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s