Mark I

“Para baixo todo Santo ajuda. E o Diabo empurra.”

Eu aproveitei a manhã de ontem em Sampa para procurar algumas coisas que sempre fazem falta, tipo ferramentas. Escrevi pro Chico que de bate pronto respondeu: têns que ir na Florêncio de Abreu. Sou obeditente, fui. Eu tava na Chácara Santo Antônio e essa brincadeira, de taxi, me custou uma passagem pro Rio. Mas a dica do Chico foi muito boa.

A Florêncio de Abreu, rua que o Chico conhece bem pois ajudou a abrir ali a primeira picada quando ainda servia ao Borba Gato, é loja de ferramenta de uma ponta na outra. Entrei na primeira loja, procurando algo para dar por falta e vi um carrinho de entrgas saindo com uma bomba d’água. Olhei as rodas e… claro!, as rodas para o nosso rolimã! Há tempos procuro pelo Rio uma melhor para substituir as de skate que são muito baixas e duras. Perguntei ao rapaz da loja sobre rodas e ele apontou pro outro lado da rua e disse: “ali têm”. E tinha mesmo.

Só rodas, de PU, nylon, borracha, pneumáticas, até com rodas de alimínio, para todo tipo de aplicação. Com a concentração de um joalheiro, pus-me a analisar uma por uma – tinha tempo – rolando as mais interessantes pelo chão, numa espécie de corrida pela loja. As que chegaram mais longe mereceram uma análise mais profunda. Pedi o catálogo do fabricante e comecei a ler as características de cada produto com a seriedade de um médico consultando seu vade mecum. Por fim, fiquei com dois modelos, capacidade de 180 kilos um e 160 o outro. O primeiro de Nylon, toda branca e a segunda de PU, laranja e cinza, que prudentemente já reservei para o projeto do próximo rolimã, o Mark II. As brancas comi um pedaço para caberem no eixo e batizei o bólido novamente, de Mark I, como deve ser nesses casos.

Montei as rodas e o carrinho parecia querer andar sozinho, morro acima, de tão leve. Vou me f#, pensei. É muito pouco atrito, rolamentos blindados, a coisa vai esquentar. Isso têm que dar m#. Meia hora antes do jogo de hoje da seleção começar, fui pra rua. Mas voltei da calçada, o carrinho tava muito careta com seus whitewalls plenos. Parecia maca de hospital. Pegamos o pincel, eu e Tales, e bolamos umas coisas. Agora sim, posso descer.

Tales aprendeu hoje a palavra roadster, quando eu disse, mais pra mim do que pra ele, que agora sim, nosso roadster tá pronto. “Nosso o quê, papai?”. Vão bora, garoto, que o Galvão já tá falando na Tv.

Há 50 metros da minha casa está o vértice do morro das Andorinhas. Para o lado oposto à minha casa é suicídio. O Ford perdeu o freio ali e digo a você que é uma sensação bastante desagradável atravesar duas pistas de tráfego sem freio e achando que só se vai parar na água da lagoa de Itaipu… Pro lado da minha casa, um ladeira com dois ângulos (olha o especialista falando), o primeiro levemente acentuado, para aceleração e o segundo mais suave, para abrir os pára-quedas. Lá de cima, como de costume, a barriga fez um barulho estranho mas eu achei que dava tempo de dar uma descida.

O empolgado aqui fez tudo certo, exceto conferir o freio. É que, com as rodas mais altas, para o qual o carrinho não foi feito – ou ao menos seu sofisticado sistema de freios – a pastilha, um pedaço de pneu mordido numa sapata, simplesmente não encosta no chão. Não adianta levantar toda a alavanca, a roda nova é bem mais alta. Descobri isso metros depois de ter dado o primeiro e desnecessário impulso. A família me assistia de camarote e eu pensado como iria trabalhar segunda todo ralado. Segurei as pernas e o cagaço, nõ tinha opção e desci assim mesmo, embalado. Com sorte não fio com os cornos no asfalto, e fui parar bem depois do que normalmente conseguia com as rodinhas antigas. Meio assustado, mas feliz como uma criança, levantei para receber os abraços efusivos dos filhos. Rá, que delícia. Quero mais.

Vou lá descer de novo. Fui!

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10 comentários sobre “Mark I

  1. Francisco José Pellegrino disse:

    Caracas, pq vc não telefonou ? anda com o GPS na mão, vai andar de taxi em Sampa tá perdido !eu não sabia que vc estava do outro lado da cidade, pensei que estivesse de carro alugado. Na outra vez a gente acerta.

  2. Carros Antigos disse:

    Chicão relaxa que Sampa é grande mas não por sua causa! Além do mais adoro andar de taxi por aí! Sua dica foi duca. Aproveitei muito o passeio e ainda mais as rodinhas!
    Rui, queria muito te encontrar mas como sempre faltou tempo na próxima vou tentar arrumar um tempo.

  3. Irapuã disse:

    Pela vista traseira, o aerofólio está fora do regulamento… Necessita ainda algumas horas no túnel de vento! E claro, uma boa regulagem nos travões, como dizem os patrícios.
    E o Dodjão serve como doador para um novo projeto. Como uma vez você me confessou, estou vendo que és mesmo lerdo para comprar antigos! hehehe. Logo, logo o Badolato aparece pelas tuas vizinhanças.
    Abraço.

  4. Roberto Cesar dos Santos disse:

    Caro Nik,
    oi nois aqui travez. Nao poderia me furtar a oportunidade de lembrar
    os nostalgicos pegas de carrinhos de rolimas, nas descidas da Mooca,
    bairro onde nasci e cresci, em Sampa. Belo bolido, o Mark I, tempos
    modernos, onde conta a aerodinamica das curvas bem delineadas, como
    adoraria Niemeyer. Permita-me o amigo, uma referencia especial ao
    belo dodge, baleado pelo tempo, estacionado com ar barroco, na foto6.

  5. Carros Antigos disse:

    Dea fato, Roberto, é um profeta do barroco, como aquele do Aleijadinho, que aponta para o céu com uma mão enquanto a outra segura a Torá. Isso aí. Bela metáfora.
    Abraço, Nik.

  6. Lucas Albuquerque disse:

    Belo trabalho Nik, vou fazer um pro meu filho de MDF e rodas de nylon de carrinho de supermercado que garimpei num ferro velho, demais! Gostei da tua arquitetura de trucks de metalon…vou aderir, se me permite a cópia.
    O teu shape é uma pintura, onde conseguiu? Grande abraço, depois te mando uma foto do meu projeto quando estiver.

  7. Nik disse:

    KKKK! À vontade, meu amigo. Esse shape me foi dado por um amigo, ele comprou em uma loja. Mas com as rodinhas de skate, não rola. Aquilo não têm grip nenhum! É um perigo! KKKKK!!! As de nylon funcionam melhor, mas compre a mais macia que encontrar. O ideal seriam pneus com câmara, eu achei eles aqui no Rio, mas o rolamente deles é horrível, de terceira linha. Se achar algo parecido, avise! Abraço, Nik.

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