Ed

Eu tinha uns 12 anos quando li em uma edição da Revista de Domingo, do Jornal do Brasil, uma matéria sobre os Hell’s Angels. Era início dos anos 80, eles estavam se organizando por aqui no Rio e, bem, se meteram em alguns problemas que renderam manchetes e muita curiosidade. Na matéria, de duas páginas, num canto estava um desenho que mudaria minha cabeça para sempre. A caveira com asas, símbolo máximo dos caras, foi uma epifania para mim. Que desenho era aquele? De onde veio? Quem fez? Um bad ass com certeza! RSRSRSR!

Naquele mundo em que eu cresci, com dificílimo acesso à informação que não fizesse parte da educação formal, aquele detalhe pequeno de um colete em uma foto foi o bastante para me fazer pensar em várias coisas novas. A primeira idéia foi pintar aquele desenho em uma camisa. Era maneiro, ninguém conhecia, eu ia abafar. Mas como? Silk era coisa cara, um amigo mais velho fazia mas eu não tinha a grana para comprar uma camiseta, o que dizer sobre queimar uma tela. Minha mãe então veio com a idéia das canetas que pintavam em tecido e imediatamente meu uniforme do São Vicente de Paulo se tornou uniforme do Hell’s Angels. A coordenadora até perguntou o que era aquilo, eu falei que apenas um desenho, ela pediu que eu não usasse mais. Soube semana passada que esta camisa, a primeira que fiz na vida, ainda está guardado numa gaveta da casa de meus pais.

Me lembrei disso tudo agora, lendo um post do H.A.M.B. Eu não sei se você sabe, mas essa idéia de personalizar camisetas com desenhos e transformá-la num suporte para uma mensagem não foi uma idéia genial minha – claro! :) Muitos anos depois daquela idéia doida de andar com a caveira alada por aí, é que eu soube que foi Ed Roth quem inventou a t-shirt tal qual a usamos ainda hoje. Até esta época, início dos anos 50, a tee era peça de baixo da roupa dos homens mais velhos. Não algo que se vestia sozinho, como peça principal. Roth então vira tudo literalmente do avesso e começa a aerografar camisas para a garotada que, enlouquecida, adota aquilo como uma parte de sua identidade. Uma revolução começou aí. Uma revolução que teve início na Califórnia nos anos 50 e se mantém até hoje, inclusive na camiseta que você esta usando agora.

Mais tarde Ed produz as camisetas e desenhos em silk, de forma industrial, a fim de atender a demanda. Seus originais aerografados são raros e itens de coleção, valiosíssimos. Foi um destes que encontrei no H.A.M.B. agora.

Eis o que o Doug escreveu lá:

“Este era um dos catálogos do Ed. A camisa circulada nele foi minha escolha para presente do meu 11º aniversário em 1961. Me pai me levou à oficina do Ed em Maywood. Me lembro que chovia e Ed estava sozinho. Ele disse: “Ei, guri, o que eu posso fazer por você?” Aí eu apontei para a camisa no catálogo que trazia comigo. Ed sentou-se e começou a aerografar uma camiseta branca para mim. Quando acabou, ele perguntou se eu gostaria de ter meu nome na parte da frente, e eu respondi ‘claro que sim!’. Ele inclusive desenhou algumas aranhas também.”

Claro que eu não sabia da existência de Ed Roth naqueles dias, mais de 25 anos atrás. Mas os sentimentos que motivaram sua arte, tão inerente à juventude de qualquer lugar do planeta, não me são estranhos, ao contrário. Vi muito de mim nesse encontro entre uma criança e um dos maiores artistas do século XX. Me deu uma puta saudade das camisetas que pintei, copiando cartoons pinçados da Car Craft, Easyrider e o que mais me caísse nas mãos. Me deu uma vontade terrível de pintar outras, de carregar minhas idéias no peito, cheio de protesto, ironia e atitude – stop bombing Afeghanistan mother fuckers! é um começo. Esses sentimentos, tão necessários, esfriaram bastante em mim, nos últimos anos. De incendiário tornei-me um emperdenido bombeiro. Me tornei um careta. Mas vou me reabilitar, graças a história do Doug e como sempre, inspirado na arte de Ed Roth.

Quero desenhar minhas camisas de novo. Semana que vêm começo.

Para ver mais coisas sobre o Ed Roth, recomendo os posts sobre ele que escreveu Jesse, do Just a Car guy.

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3 comentários sobre “Ed

  1. Nanael Soubaim disse:

    Camisetas que financiaram as loucuras sobre rodas. Imagine o que ele faria com a tecnologia de hoje! Sem dúvida riria na cara dos que tentam fazer carros eléctricos pequenos e populares e reclamam que não lá cabem (nem eles suportam) baterias suficientes.

  2. Alexandre Machado disse:

    Muito legal essa matéria!!!
    Sou muito fã do Ed, Roth… Rat fink, inclusive tenho o álbum de figurinhas completo do Rat Fink!!!

    Parabéns pelo texto e as fotos!!!

  3. Dan disse:

    “Big Daddy” é um cânone, como o George Barris.

    O talento dele se multiplicou em várias vertentes. Tinha tudo a ver com o surfe, com a ideia de futuro que se tinha nos 60 e com o espírito relaxadão da Califórnia (embora ele fosse alemão de nascimento).

    Quem da minha geração não armou os Finks da Revell? Até minha esposa… Quando quer me sacanear me chama de Angel Fink por causa do narigão hahuahauah

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