Cia de Automóveis Guido Cé – 8

Quando Getúlio Vargas proibiu a importação de automóveis no Brasil, em 1953, as coisas ficaram bem difíceis para a Companhia de Automóveis Guido Cé. Como de resto para todas as Agências e Revendas de automóveis no Brasil que, da noite para o dia, não tinham mais como repor seus estoques nem atender a demanda crescente do nosso mercado interno. A não ser que…

Acima e à direita, lembrança da viagem de 1958

A história que me chegou ontem, pelo Zonta, dá conta de que, diante da proibição, os Srs. Guido e Jordano Cé encontraram uma saída para a falta de carro zero à venda no mercado e, com isso, não terem que depender somente da venda de caminhonetes, caminhões e tratores, entre outros produtos que já vinha comercializando desde os anos 40. Eis o que fizeram.

Em 1958 o Sr. Jordano Cé viaja para os EUA com o amigo Bertôldi, revendedor Ford da cidade de Pelotas – RS. Eles devem ter repetido o estratagema de muitos naquela época. É que importar carro não podia, mas peças o Governo deixava. Então, Jordano Cé vai aos EUA e arremata 150 automóveis zero quilômetro, para serem revendidos em Encantado. Lá mesmo contrata alguns mecânicos, desmonta parcialmente os automóveis, encaixota com cuidado as partes e envia tudo ao Brasil, em lotes de 20 ou 25 unidades por vez. Entregues em Encantado, os mecânicos de sua oficina remontam então os carros que vão ligeiro para o salão de vendas. Seu amigo Bertôldi, de Pelotas, faz o mesmo, também com êxito.

Eram outros tempos aqueles: uma foto no Empire State sem King Kong no fundo!

Nesta mesma viagem aos EUA, entre negócios e algum lazer, ele compra para seu uso por lá um Ford Fairlane Custon 300, que posteriormente também foi enviado para o Brasil. Lá ele aproveitou bastante o Fairlane e foi inclusive com ele às corridas em Indianápolis, onde também conhece o Motor Speedway Hall of Fame Museum, conforme as fotos abaixo.

Mais tarde, de volta da viagem, e também para seu uso particular, Jordano Cé compra um Fairlane 500 Club Victória, como aparece na foto a seguir, de janeiro de 1961, clicada em Brasília, a recém inaugurada Capital Federal.

Todas as fotografias na sequência fazem parte do acervo fotográfico da família Jordano Cé, que gentilmente foram emprestadas por Hamilcar Cé ao prezado Navarro Zonta.

Abaixo, posando junto ao Fairlane que mais tarde também viria para o Brasil. Será que este carro ainda existe?

Se esta foi a primeira viagem de Jordano Cé aos EUA, eu não sei. Mas é provável, pois este estacionamento lotado de automóveis chamou sua atenção. O que deve ter lhe passado pela cabeça, como comerciante de automóveis, ao ver num único pátio mais automóveis do que jamais venderia em anos de comércio no Brasil? Certamente que fez muitas contas, de cabeça.

Abaixo, duas fotos no Motor Speedway Hall of Fame em Indianapolis.

Abaixo, as corridas em Indianapolis, 1958. Devem ter achado tudo extraordinariamente fantástico.

Abaixo, em 1961, com seu novo Fairlane em Brasília. As últimas duas fotos eu não sei onde foram clicadas, talvez em Encantado?

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20 comentários sobre “Cia de Automóveis Guido Cé – 8

  1. Mário Buzian disse:

    Nik,

    É simplesmente APAIXONANTE ver essas imagens da Família Cé que estão vindo à público, depois de mais de meio século, que coisa fantástica isso !!!
    Um grande amigo nosso que é médico comprou no mesmo leilão onde eu adquiri o nosso Dodge Dart um Ford Fairlane cupê ano 1958, e ele pode ser esse carro das fotos, vou enviar o link dessa postagem a ele, e depois te passo por e-mail a resposta, certo ??
    Provavelmente esse Fairlane chegou por essas bandas vindo pela Guiceco ou pela revenda de Pelotas.
    Ford abraço !!!

  2. rafael bruno disse:

    Quando leio os posts com as fotos e história da família Cé, viajo no tempo onde nosso país, nosso mundo era outro!

    Isso que Cé fez de desmontar e enviar, é o famoso jeitinho brasileiro (claro que esse aparentemente não fez mal a ninguém)

    Parabéns mais uma vez pelas fotos!

  3. Nanael Soubaim disse:

    É para isto que deveria servir o Jeitinho, para adequar uma actividade à legislação vigente, não para burlar leis. Lamento deveras o que aconteceu com o lote de quinhentos carros, asseguro (com nó na ganganta, sou funcionário público) que a possibilidade de os responsáveis poderem levar alguns para casa teria agilizado um leilão e quase a maioria deles estaria com placa preta hoje… O que stou fazendo neste pardieiro?

  4. Carros Antigos disse:

    Rafael, o mérito é todo da família Cé que gerou e preservou estes registros e, depois, do Navarro que se dispôs a digitalizar todas as fotos e compartilhar com o mundo.
    Eu estou muito entusiasmado com a oportunidade de publicar isso. Entre todas as oportunidades de ser admirado, o automóvel me atrai justamente por este aspecto, o histórico, fotográfico e nacional, nessa ordem. Estou sem pique para publicar outras coisas por enquanto. Estou afogado pelo ineditismo das fotos, pelas histórias, pela chance de recriar a vida pública e íntima de uma famosa e bem sucedida revenda Ford, nos anos cássicos da companhia, aí compreendido o período até 1953. É raro de mais esta chance, o americano não mostrou na web algo assim, ainda. Eles têm, mas não devem estar tão interessados nisso, haja visto a participação de sites que buscam essas histórias na web, parte bem pequena do todo.
    Mas, pelo que o Zonta me conta, ainda têm muita coisa pra chegar. Tenho particular interesse pelas fotos de 48/57, justamente o período ao qual o Zonta ainda não teve acesso.
    Enfim, estou entusiasmado com a chance.

  5. Alexandre Zamariolli disse:

    O “jeitinho” dos Srs. Guido e Jordano foi o mesmo utilizado pelo piloto e construtor de carros de competição Antônio Carlos Avallone para trazer as motocicletas BMW R 100 durante a segunda proibição (1976-1990). Por volta de 1980, ele importou as peças, montou-as e comercializou-as sob a denominação “Avallone 1000”. Com exceção do logotipo (o unicórnio da Avallone tomava o lugar da hélice bávara) e do acabamento do banco (de couro, e não de plástico com costuras eletrônicas), era rigorosamente a mesma máquina. Salvo engano, foram construídas dez unidades.

  6. Francisco José Pellegrino disse:

    A história da familia continua maravilhosa, a gente se emociona de ver as raridades que fazem a nossa cabeça….vc não tem idéia de como eu gostaria de saber porque temos no Brasil esta SANHA ARRECADATÓRIA ?????? UM DIA DESTES VAMOS ESQUECER OS POSTS AUTOMOBILISTICOS E DISCUTIR ESTE ASSUNTO.

  7. Nanael Soubaim disse:

    Francisco, trabalho em um órgão fiscalizador e arrecadatótio, então posso aconselhar com propriedade: discutam isto noutro blog, um que se preste a servir de más lembranças.

  8. AGB disse:

    Em 1953, com o armistício na Coréia, o Brasil entrou em crise cambial. As importações foram submetidas a severas restrições e os automóveis, considerados artigos de luxo, só eram admitidos em números irrisórios. Para comparação, em 1951-52 o Brasil adquiriu 100 mil veículos e 1954 menos de mil. Mas quem fosse ao exterior podia trazer uma unidade; logo se estabeleceu uma caravana de espertalhões que viajava (ou pagava a viagem de alguem) para voltar com a cobiçada mercadoria que logo era vendida pelo triplo do valor. Como o fisco não gostou e proibiu a farra, os vivaldinos aproveitaram um furo da legislação e contratavam um estrangeiro para fazer turismo de uma semana no Brasil, com um belo Chevrolet, Ford ou Mercury na bagagem. Conclusão: o ingresso de automóveis ficou reservado ao corpo diplomático.

  9. AGB disse:

    A “importação” de peças automotivas para posterior montagem de um veículo completo foi um esquema em que participaram inúmeras pessoas e grupos, referendados por elementos do governo gaúcho da época. Portanto, o caso era o mesmo das agências de Encantado e Pelotas. Essa tentativa de usar uma brecha legal foi impedida pela Receita, que apreendeu e vendeu em leilão a maior parte dos carros. Alguns foram liberados por medidas judiciais mas resultaram em muitos incomodos a seus proprietários. Acho que não foram trazidas mais de 50 unidades. Talvez algum dos correspondentes dessa página tenha mais informações.

  10. Carros Antigos disse:

    AGB, realmente 500 automóveis são um número e tanto. Um Custom 300 em 1958 era vendido por 2.132 dólares. Vezes 500, dá por baixo e só a título de aquisição, US$1.066.00,00. Muito dinheiro hoje e ontem. Atualizando pelo GDP relativo, isso dá 17 milhões de dólares em dinheiro de hoje, mais ou menos.
    Também acho um tanto esquisito alguém importar 500 carros ao mesmo tempo, mas, nesse país tudo é absolutamente possível. Todos vimos a Polícia Federal invadindo o Salão do Automóvel, 3 anos atrás, e resgatar vários Lambos em situação irregular, avaliados me mais de 10 milhões.
    De qualquer forma, algo aconteceu. 50 ou 500 se perderam. Mas, que o mercado do RS então absorveria 500 automóveis com facilidade, me parece plausível e razoável.
    Quem sabe o pessoal do Papareia não ajude? Cadê o Luiz Sampayo?

  11. Luiz MSampayo disse:

    Nikollas, lí todos os comentários atentamente e sigo na certeza de que sobre esse assunto existem mt mais coisas entre o céu e a terra do que poderíamos imaginar. Esse malfadado affair dos 50s no Br, bem mereceu o título de reportagem “A grande burla”, publicado na renomada Revista de Automóveis. Justamente por isso não creio que a familia Cé ou a Bertoldi tenham “repetido o estratagema de muitos n’aquela época”; mas sim a exemplo de Satte Alam, Wigg, Jung, a Mesbla, a Importadora Americana, ou até mesmo o caudilho gaúcho, não arriscariam infringir a Lei 2145 de 291253 e mt menos o Decreto 34.893 de 050154 que previa multa de 150pc, além de um belo processo administrativo com o inevitável perdimento do veículo para leilão. Porém eh claro que a medida governamental não inibiu tanto os negócios que se seguiram, os ilícitos de marginais e os “lícitos” de privilegiados, desde veículos criminosamente clonados ateh aos que aquí chegaram para atender a demanda dos “representantes do povo”. Estes, acima dos simples mortais foram beneficiados pela Lei 3053 de 221256. Outra prova notória dessa triste novela eram os lotes de carros presos nos portos brasileiros, boa parte destes tidos como bens pessoais de viajantes ou emigrantes, laranjas ou não, que por falta de melhor informação “inadvertidamente” os importaram com base nos direitos que emanavam do Art142. Ligado ao ramo marítimo e aficcionado por carros desde pequeno, lembro de circular com meu pai entre um mar de carros no caes Mauá, inclusive recordo mt bem dos Chevrolet 59 line que estavam depositados nos armazens do Porto Velho d’aqui de Rio Grande,RS. Ironicamente para os meus olhos de criança era como estar na DisneyLand. Ab

  12. AGB disse:

    Para a pequena história. O governador RS da época não era nenhum caudilho e não teve implicação no esquema. O assunto foi amplamente ventilado na imprensa e qualquer deslize teria vindo à tona, ainda mais que era um ano eleitoral. Mudando de tema: para importar um automóvel em 53-54 era necessário participar de um leilão de dólares, realizado pelas Delegacias Fiscais uma vez por mês nas grandes capitais (Rio, SP, POA, BH etc). Em cada remate eram oferecidos 10.000 dólares e os lances subiam a 200-250 cruzeiros, ou seja 3 a 4 vezes o dólar oficial. Sobre o preço do carro incidia um imposto de 200%. Por isso, um BelAir 54 era vendido por 750 mil cruzeiros enquanto dois anos antes ele valia 150 mil.

  13. Luiz MSampayo disse:

    No texto de abertura deste post qd foi citado pelo Nikollas: “Em 1958 o Sr. J.Cé viaja…e arremata 150 automóveis ok…Touché!…”, e mais adiante citou sobre um dos governadores do RS “…que vendo o sucesso de J.Cé em, digamos importar automóveis, êle decide fazer o mesmo”, e ainda em outro trecho citou “O ilustre Caudilho importou 500 automóveis de uma única vez, e consta que…”; entende-se que se refira ao Governador do RS eleito em 1958 para a gestão 1959 a 63. Se confirmado, este foi um dos últimos a popularmente merecerem tal designativo entre os líderes carismáticos do RS, Estado onde mt em particular sua brava História está repleta de poderosos Caudilhos oriundos da oligarquia rural e que tiveram papel preponderante como chefes eleitorais. Entretanto sobre esse assunto reitero o que registrei em coment. anterior “…, não arriscariam infringir a Lei…”. Finalmente tbm acho recomendável seguir o conselho que lí no coment. do Nanael Soubaim “discutam isto noutro blog, em que se preste a servir de más lembranças”.

  14. Carros Antigos disse:

    Luiz e AGB, tropecei aqui nas palavras. Escrevi sobre algo que não conheço e o resultado foi este. Me desculpe qualquer um a quem a falta da verdade dos fatos tenha atingido por qualquer meio. Vou riscar do post este parágrafo sobre o episódio dos 500 carros. Principalmente por medo de que alguém, daqui 100 anos (!) tome esta versão estapafúrdia do autor aqui por verdadeira, um risco que não podemos correr. O uso da palavra caudilho, mesmo antecipado pela consulta ao Houaiss, foi deveras inoportuno. Só o entusiasmo para explicar tamanha falta de juízo e precipitação.

    Ao menos, com este post, e é este o lado bom da história, o Luiz e o AGB deram uma aula sobre a importação de automóveis no Brasil nos anos 50. Como testemunha dos fatos, os comentários de vocês são infinitamente superiores em qualidade e fundamentos que os meus. Obrigado a ambos.

    O parágrafo em questão será mantido, porém riscado. A frase que contém a palavra estratagema idem, não faz falta aqui.

    Abraços, desculpas e obrigado, Nik.

  15. Marcelo Fernandes disse:

    Sensacionais as fotos, as aulas sobre importações dos anos 50, a história da Guido Cé e tudo por aqui. E não se preocupe Nik, daqui a cem anos isso tudo será dissertação de mestrado e alvo de pesquisa histórica.

  16. Carros Antigos disse:

    Bom, à título de esclarecimento: resolvi deletar o parágrafo citado, que traz uma estória totalmente alheia à da família Cé e seus negócios e que, por um descuido meu, foi publicado junto com suas fotos. Temo que, assim tão próximos, fatos que não se comunicam na história seja corelacionados com grave prejuízo para o leitor mais distraído, que tome por verdadeiro aquilo que definitivamente não o é. Sobre este assunto que foi deletado, outras fontes no futuro poderão tratar com mais propriedade.
    Assim, restam os bons comentários que são realmente úteis e dignos de registro e de serem preservados aqui.

    Abraço a todos, Nik.

  17. JUNIOR VOGES disse:

    Bom, gostaria de me apresentar ao pessoal do blog e colaboradores, meu nome é JUNIOR VOGES, da cidade de Encantado, mesma da CIA DE AUTOMOVEIS GUIDO CE, comverso seguidamente com o SR AMILCAR CE, da familia CE, que é detentor desse maravilhoso material, gostaria de dizer como é bonita essa historia, com fotos, depoimentos e historias da epoca, e que bom que alguem se dispoz a catalogar e digitalizar esse material tao refinado, pesso que continuem a contar essa historia, para que esse pessoal mais joven da nossa regiao e de todo o Brasil conheça mais sobre os desbravadores do automovel do Brasil. Um abraço a todos.

  18. Carros Antigos disse:

    Obrigado, Junior. E a todos da família Cé que já passaram por aqui deixando seus elogios e agradecimentos. Reitero, todavia, que a família Cé é a maior merecedora, assim como o amigo Navarro Zonta, por terem permitido e criado condições para que este material seja compartilhado com todos nós.
    Abraço fraterno, Nik.

  19. Jordana Cé disse:

    Oii, eu sou bisneta do Jordano Cé, e só passei aqui para dizer qe achei muito legal o qe fizeram, relembrando alguma historia da vida de meu bisavo.

    Parabéns pelo blog.
    Beijos, Jojo.

  20. Farrell disse:

    Sensacional o Post, obrigado a todos pelo sábio exclarecimento desta parte da História!
    Parabéns pelo Blog!

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