Sob encomenda

Publiquei este post lá no blg do Shoebox, mas acho que isso é de interesse de todos, independente do carro em questão.

A história a seguir foi pinçada, por dica do amigo Sandro, do blog do senhor Antonio Peron, que conta a memória da sua cidade natal, Araguari, em Minas Gerais. Nela, um raro relato de como foi a introdução e uso do Ford 1951 em sua cidade e além, entre outros aspectos da vida de então. Um texto saboroso e imprescindível.

A foto que o ilustra, também dica do Sandro, veio do blog Carros Órfãos, e mostra um lindo Ford 51 customizado à lá Crestliner, que está esquecido por aí, em algum lugar do Brasil. Eis o texto para o qual não creio existir melhor fotografia que o ilustre.

Sob Encomenda

Caros Leitores.

Em uma reunião que estávamos tempos atrás, encontramo-nos com o “Miltinho”, Dr. Milton de Lima Filho, e ele, com a alegria e o carisma que lhe são peculiar, dirigindo-se a nós disse: “Peron, acompanho todos seus Pontos de Vista, é muito bom voltar ao passado com você.

Na matéria sobre as agências de automóveis em Araguari e os usuários dos veículos Citroem na década de 50 foi minuciosa. Não faltou nenhum dos usuários, sendo as cores, os anos, os donos de cada um, dentro da fidelidade absoluta.

Inclusive eu possuía um Citroen (deixamos de citá-lo na matéria, fica registrado agora). Gostaria que você fizesse um retorno ao passado, narrando os proprietários de carros e o decorrer dos anos da década de 50. Quero que você conte a história do “Fordão” 51 do seu pai, o Julio Erbetta. Estou esperando pela matéria”.

Ora caros Leitores, ouvir isto de um homem que conhece a história de Araguari detalhadamente, em seus pormenores, nomes por nomes, geração por geração, foi um elogio deveras emocionante e incentivador.

O que escrevemos, nada mais é do que nossa vivência nesta terra querida, dos anos 50 para cá.

Se o pouco que lembramos trás alegria para os que nos acompanham em suas leituras, para nós é motivo de orgulho e principalmente fator indispensável para que continuemos a narrar e reviver coisas e fatos importantes de nossa infância, juventude e maturidade atingida com o decorrer dos anos e constituição de nossa família.

Família esta que por sinal, encontra-se esparramada por este Brasil afora, contribuindo para seu desenvolvimento e sobrevivendo dentro de suas profissões. Sempre que possível nos encontramos.

Mas vamos lá tentar corresponder ao que o “Miltinho” nos solicitou.

Em 1951, primeiro ano da segunda metade do século XX, os automóveis estavam ganhando novas linhas. Estavam perdendo os pára-lamas e estribos, faróis sobrepostos, e ganhando linhas modernas, aerodinâmicas, um estilo adotado na revolução dos tempos. Das linhas modernas adotadas, nosso pai, Julio Erbetta, se entusiasmou com a linha Ford.

Conforme matérias anteriores, o senhor José França, era o agente em Araguari. A loja expositória e casa de peças, funcionavam onde hoje é o Diomedes com a Buggy. O posto de gasolina em anexo, onde hoje é a farmácia São Sebastião, do “Piosco”. As oficinas funcionavam no imenso prédio da rua Jaime Gomes, entre a Afonso Pena e Rodolfo Paixão, onde por último funcionou a escola IPEA. O chefe das oficinas era o Marcondes Ungarelli. A exposição de veículos passou posteriormente para onde hoje é o “IT Magazine”.

Em junho de 1951, nosso pai, entusiasmado com o “Fordão 51”, influenciado que foi pelo senhor Ernesto Golia, que possuía um de cor creme, fez a encomenda do dele, encomenda esta com a recomendação ao “França” (como era chamado), de que seu filho, Geraldo França, fosse o condutor do mesmo de São Paulo até Araguari. Recomendou ainda que fosse colocado um coxinilho no lado do motorista, para que ninguém sentasse ao volante, no banco original a não ser ele. Assim foi feito. O Geraldo França trouxe o carro de São Paulo até Araguari dentro das recomendações feitas pelo nosso saudoso pai. Foi a realização de seu sonho.

Para melhor ilustrar a história, o “Miltinho”, foi junto com o Geraldo a São Paulo, trazendo mais um Ford 51, sob encomenda para Araguari.


Isto aconteceu justamente no dia 03 de dezembro de 1951. Faltavam 27 dias para o ano se encerrar e o carro estava chegando. Chegou na véspera do aniversário dele, 04 de dezembro. Foi seu presente de aniversário. Era verde garrafa.

O carro custou à vista, Cr$ 112.000,00, mas com os equipamentos colocados, ficou por Cr$ 113.800,00. O sacrifício de uma vida de trabalho, compensada com a aquisição de seu primeiro veículo.

Quando da encomenda feita em junho de 51, uma série de amigos de nosso pai, aderiram pelo seu entusiasmo a idéia de possuírem um Fordão 51.

Assim, as encomendas foram feitas e recebidas pelos senhores Hamilton de Oliveira Santos, morava onde hoje é a continuação da rua Maricota Santos, aquela casa demolida na Cel. José Ferreira Alves, dá acesso na rua Achileu Nogueira. Era um Ford azul, lindo.

O senhor Jovino Bittencourt, com um belo 51 creme. O senhor Eugênio Nasciutti, recebeu um cinza. Rossini Aguiar possuiu um duas portas. O senhor Julio Ribeiro, tinha um creme, muito zelado, sempre na garagem ali na Tertuliano Goulart com a Praça Farid Nader.

O taxista Manoel (fugiu-nos o sobrenome), residia onde hoje é a Casa dos Parafusos, posteriormente foi para Brasília com sua fundação, levando seu 51 azul.

Os nossos amigos, Dormeval Gonçalves de Araújo, juntamente com seu irmão João Gonçalves de Araújo (eles mesmos buscaram em São Paulo, um azul e um creme) e também, atendendo a insistência do nosso amigo Dr. Péricles Barbosa (possuidor de uma memória fantástica) o taxista de saudosa memória, José Teia.

Um detalhe para melhor ilustrar, é o de que o marido de nossa então Miss Minas Gerais, Carlene Alves, também possuía um Ford 51 azul claro, e sempre que aqui vinha, a viagem era feita nele. Chama-se Hélio de Souza, trabalhava na Cia. Brasileira de Sinalização. Engenheiro aposentado, residente em Belo Horizonte.

Muitos dos citados já nos deixaram, mas seus familiares, temos certeza, irão se lembrar destes anos felizes, quando seus pais, com os carros lotados por eles, na época crianças como nós, fazíamos nossos passeios nos locais pitorescos de nossa cidade nas tardes de sábados e em longos piqueniques domingueiros. Foi um belo tempo.

Para completar os carrões desta década, citamos possuidores de outras marcas, trazendo nas memórias, bons tempos vividos pelas famílias araguarinas.

Elias Daher possuía um Kaiser vinho 51. Mário Abdala do curtume possuía um Chevrolet 51. O senhor Paulino Abdala, um Buick verde 50 quem o dirigia era sua filha Geni.

Estevan Suzelbeck do Pálace Hotel com sua Buick sedanete 50. Justino de Carvalho possuía um Pontiac, saia e blusa, duas cores, amarelo e verde no teto, ano 51.

Osmundo Rodrigues da Cunha com seu Chevrolet 51 cinza. Mário Lieggio com sua Studebaker 51 hidramática. Tim Lieggio com seu Ford 42 creme.

O Dr. João Isaac Neto uma Studebaker verde, 51. O José Machado com sua Chevrolet 51, também taxista. O Manoel Póvoa possuía uma camioneta Bed Ford (Inglesa).

José Zacharias com sua Chevrolet 51. O José Chico, do Banco Comércio de Minas com a camioneta International pelo fato de ser caçador e transportar os cães de caça.

Manoel Lemos tinha uma Chevrolet 53, pára-lamas em desenhos ovais. O belo Ford 55, vermelho e branco do França. Miguel Debs com a Chevrolet 51.

Eduardo Rodrigues da Cunha, Chevrolet saia e blusa, duas cores (como eram chamadas na época). O Lazumberto Araújo com a camioneta Studebaker 51 vermelha com os para-lamas pretos.

O senhor Amélio Valente com sua Plymouth 51 e sua camioneta Chevrolet 54 (Marta Rocha). Assad Saad também tinha uma Plymouth 51. Antônio Bretones com a Studebaker. Joaquim Magalhães usava sua Chevrolet 51.

O Augusto Diniz, assim como Acácio Diniz Póvoa possuíam Doddges Coroned 51, ambos marrons.

E por aí a fora. Naqueles tempos adquirir um veículo do ano era bem difícil, pois os mesmos eram importados e até chegarem no Brasil já estavam vendidos nas grandes capitais. As cidades do interior recebiam muito pouco das remessas, motivo pelo qual, quem tinha não vendia e os usavam por vários e vários anos.

Mas para você caro Leitor, que nos pergunta: e o Ford de seu pai, o que foi feito dele ? Respondemos, em 1975, o vendemos, e o mesmo passou por várias mãos em Araguari, indo acabar sendo levado para São Paulo. Não temos notícias dele, torcemos para que alguém o tenha recuperado e o exiba nas exposições de carros antigos.

O Ford 51 era tão procurado, que o Expresso Zefir, que fazia a linha Santos – São Paulo, era composto deles. De vez em quando, vinham em Araguari tentarem adquirir os aqui existentes.

“Miltinho”, queremos crer que conseguimos arcar com a matéria. Ela foi feita SOB ENCOMENDA. A seu pedido.

Era o que tínhamos.
 Que Deus nos abençoe.
 Um abraço.

Lindo o texto, não?

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5 comentários sobre “Sob encomenda

  1. Julio Erbetta disse:

    Nikollas Ramos.

    Ficamos muito felizes ao receber seu comentário e ao visitar seu blog.

    Informo que Peron Erbetta, meu pai, infelizmente faleceu em julho/09 e ao ver seu comentário e sua postagem ficamos muito emocionados.

    Papai era apaixonado por carros, por escrever e por Araguari, onde peço a gentileza de modificar no post pois fica no Triangulo Mineiro, estado de Minas Gerais e não em São Paulo .

    Agradecemos sua atenção e a distinção desta matéria fazer parte do seu blog, o qual é muito interessante e do qual passaremos a ser seguidores.

    Atualmente faço a manutenção do blog do meu pai, que continua ativo e onde constam outras matérias relativas a automóveis como:

    Devaneios IV: http://peron-erbetta.blogspot.com/2008/09/devaneios-iv.html

    Recordando: http://peron-erbetta.blogspot.com/2008/09/recordando-agncias-carros.html

    Mais uma vez muito obrigado, parabéns e sucesso para o seu blog.

    Julio Erbetta

  2. Nikollas Ramos disse:

    Julio, lamento a notícia, meus sentimentos por tamanha perda.
    Eu me encantei realmente com o artigo de seu pai, e ainda este final de semana vou vasculhar os blogs em busca de outras histórias.
    Sabe, quando eu li o texto fiz planos de entrar em contato com ele, e quem sabe, entervistá-lo em busca de mais detalhes sobre a vida em Araguari, principalmente no que pertine ao automóvel, já que ele, além de admirador, era um grande conhecedor do assunto, como você mesmo diz.
    Mas a vida é assim, cheia destes desencontros e encontros. E que falta nos fazem estas pessoas e sua memória, para dizer o mínimo. Seu pai me lembrou muito do meu avô, também exímio contador de histórias e apaixonado por carros. Quando este se foi, me lembrei daquele ditado que diz “quando morre um homem se incendeia uma biblioteca”. É também isto o que se vai com eles, muita informação privilegiada que, além de suas cabeças ilustradas, não se encontra em mais lugar algum.
    Obrigado pelo retorno, abraço fraterno e seja bem vindo.
    Nik.

  3. Nanael Soubaim disse:

    Júlio, não é preciso muito, além de ler o texto, para perceber que teu pai era mais importante para Araguari do que a cidade hoje pode supor. O que foi exposto aqui, para um bom investigador, é o bastante para reconstituir o local da época com minúncias. Ter e cultivar uma memória assim já o torna digno de admiração.

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