Rio de Janeiro, 1971.

A respeito do comentário do Mário, que me fez pensar numa nuvem de pessimismo sobre o futuro do automóvel antigo no Brasil, resolvi compartilhar esta foto que guardo comigo há dois anos. Foi presente de aniversário, daí o egoísmo. Me perdoe.

A foto, de 1971, foi clicada num terreno mantido pelo Detran aqui no centro da cidade, na Avenida Chile, ao lado da Catedral Metropolitana. No mesmo local, hoje, existe uma escola pública e estacionamento, se não me falha a memória.

Este mesmo lugar, assombrado pela alma de tantos automóveis hoje clássicos que ali encontraram seu réquiem, foi fotografado, dois anos depois, em 1973, pela Life Magazine, conforme dica do Andre Decourt, como já publiquei aqui anteriormente.

Como se vê, dois anos foi suficiente para o Estado do Rio de Janeiro jogar fora toneladas do melhor lixo automotivo que se pode imaginar, e limpar o terreno para – esta a ironia da coisa – dar lugar a mais um estacionamento onde se vê, mais tarde, mais automóveis clássicos, iguais ou assemelhados aos que antes ali estavam abandonados. Como é o caso do Chevrolet 55 que se vê à direita e que eu adoraria saber que fim teve.

Enfim, é uma foto e tanto. Sombria, densa, contrastada na revelação forçada, dá a impressão que aquela montanha de carros estava a sussurrar “socorro… nos tirem daqui… salvem-nos”, mas nenhum de nós chegou a tempo, e eles foram pro lixo mesmo.

Identifiquei alguns carros, quem quiser me ajudar a corrigir as mancadas e identificar os muitos outros, para completarmos o quadro, sinta-se convidado. Lamentavelmente, ali se vêem carros que hoje são disputados em qualquer coleção do mundo. Chevroelts, Pontiacs, Mercurys, Nash, Buicks e até o meu estimado Ford 1949. No lixo.

Sabe, 1971 pode ser lido hoje como o ano em que o descarte dos automóveis importados dos anos 50 alcançou se ápice, seja pelo advento da indústria nacional uma década antes, seja pelo custo de mantê-los de pé, funcionando.

Por este ângulo, podemos admirar cada antigo desta época quase com o mesmo respeito que se deve a um veterano pracinha da FEB, pois eles sobreviveram à pior das batalhas, o seu próprio Monte Castelo, que foi a trágica, rápida e fatal obsolescência dos automóveis clássicos nos anos 70 e 80 no Brasil.

carros_rio_id

Abaixo, as duas fotos da Life do mesmo lugar, porém de ângulos diferentes, dois anos depois.

Esta é, amigo, a tal da obsolescência programada que a General Motors inventou, registrada em fotos para provar aos moradores do século XXI a que ponto chegou a cupidez de seus antepassados no século XX. E que nem se fale no preço que o meio ambiente pagou por esta farra toda, afinal, este é um problema nosso, não daqueles que o causaram. Muito menos o assunto primeiro deste blog.

Que o planeta Terra e os automóveis antigos que sobreviveram a esta época tenham melhor sorte daqui por diante. Vamos ver, quem viver verá.

E tire seu antigo da garagem. Bom final de semana pra todos.

carrosantigos_wordpress_com772carrosantigos_wordpress_com775

Anúncios

19 comentários sobre “Rio de Janeiro, 1971.

  1. Bento disse:

    Notou o Plymouth 1958 entre o Packard 53 e o Ford 53?

    Infelizmente as coisas são assim mesmo. Nos EUA o sucateamento foi 1.000.000 de vezes maior do que aqui no Brasil. Brasileiro usava (e ainda usa) o carro até o osso. Esses carros nos EUA teriam virado sucata muito antes…

  2. Andre Decourt disse:

    Rapaz, tive a oportunidade de ter umas fotos do DETRAN GB na minha mão, uma eu comprei, mas estava muito caro. Os ferro-velhos nessa época eram simplesmente uma loucura, e haviam muitos pela cidade, parece que o órgão estava dando uma moralizada

  3. Mário Buzian disse:

    Puxa vida, imaginem só o peso todo em cima dos carros embaixo, na pilha da base da parede…E pensar que vários terminaram assim os seus dias…
    Nik, a foto é realmente triste, mas essa era uma realidade que não poderia escapar, fico só imaginando o que esses carros importados davam de trabalho por conta da falta de manutenção e uso prolongado e excessivo (“até o osso”,como o Bento bem lembrou…), e ainda os famosos problemas de documentação, aliados à enorme falta de informação e peças de reposição para os mecânicos, funileiros, eletrecistas e pintores conhecedores desses tipos de carro fora dos grandes centros…
    Concordo que o ápice desse genocídio tenha ocorrido no começo dos anos 70, mas pior mesmo foi quando chegou a crise do petróleo, aí sim os ditos “carrões” não tinham mais como serem sustentados por pobres mortais que viam seus maravilhosos exemplares valerem menos que eletrodomésticos, e muitos acabaram nas mãos de arruaceiros e/ou indo para a fornalha do inferno antigomobilista…

  4. David disse:

    Pois é! Naquela época aqui no Brasil você passava mais ou menos uns 10 anos com uma carro na mão, ao contrário de hoje em dia que você troca depois de 3 ou 4 anos de uso no máximo. É interessante notar a variedade de carros trazidos ao Brasil, ainda que em poucas quantidades, sendo um exemplo disso a presença de marcas como Chevrolet, Opel e Vauxhall, coisa inemaginável hoje em dia.

    Meu avô que guarda em memória até hoje toneladas de histórias sobre carros como esses no interior de Pernambuco, onde ele nasceu e morou por um tempo.

  5. tarcisio nunes da silva filho disse:

    Oi, gostei muito deste blog e estou mandando meu email, caso o amigo queira publicar alguma coisa sobre motos antigas, estou acabando de montar meu museu de motos dos anos 70, a partir de setembro estara ativado para visitas, se possivel entre em contato, abraços, tarcisio

  6. Nikollas Ramos disse:

    Bento, tentei identificar este Plymouth mas nãi consegui. Valeu a dica.
    Andre, tinhamuitoa cosia boa neste acervo o Detran que voc6e não comprou? Será que um dia veremos publicado?

  7. Bento disse:

    Nikollas,

    Esse 58 poderia até ser um Fury. Já pensou um desses hoje em dia! Mas provavelmente deveria ser um sedan 4 portas. Savoy talvez. Só Deus mesmo para saber…

    Um grande abraço e novamente parabéns pelo Blog,

    Bento

  8. Nanael SOubaim disse:

    Sempre fui contra jogar fora coisas que ainda têm utilidade, quando se trata de um automóvel então, invenções das mais úteis que a humanidade concebeu, chega a ser uma afronta à minha pessoa. É justo a cultura de descartar, aliás, que impede que os automóveis se tornem realmente modernos e evoluídos, quase sempre o povo se contenta com cosmética e acessórios que raramente usa.

  9. André Grigorevski disse:

    A primeira foto é assustadora pra gente hoje em dia… Mas não deixa de ser bastante interessante. Seria um Lincoln (48, 49, por aí) abaixo do Gordini e um Citroen que se vê quase apenas a grade abaixo do único carro branco no topo da pilha (que não consegui identificar)?

    Já fui diversas vezes a feira da Praça XV, onde vi muitas fotos antigas a venda, mas nunca tive a curiosidade/coragem de perguntar o preço. São caras? Vendem pela unidade ou por lote / “coleção”?

  10. Nikollas Ramos disse:

    André,
    Eu também acho que é um Lincoln Zephyr, mas não consegui confirmar, André. O Guilherme deve estar dormindo até agora ou está sem internet, pois ele é fera nestas missões de identificar esses carros. O mesmo para o Citroen, mas esse eu conheço menos ainda.
    Na feira têm de tudo, já comprei lote de 500 fotos por 100 reais mas já vi fotos de 100 reais a unidade, pra mais.
    Achando alguma legal, compartilha!
    Abraço, Nik.

  11. Milton Flávio do Couto disse:

    Amigos, o Lincoln em questão (abaixo do Gordini) é um Cosmopolitan, 48 ou 49. Carro bastante raro e interessante. Abraços, Milton Flávio do Couto

  12. Nikollas Ramos disse:

    A peça que faltava. Guilherme já identificou vários carros e eu vou re-emitir esta foto com as legendas quase completas, Milton.
    Abraço, Nik.

  13. André Grigorevski disse:

    Caso ainda não tenha sido identificado, um amigo reconheceu o carro branco no alto da pilha como sendo um Henry Jr. De fato, lembra muito. E, mais fato ainda, eu nunca lembraria desse modelo…

  14. Nikollas Ramos disse:

    Acho que o Guilherme tinha matado esse já. Eu vou hoje atualizar a lista com os nomes que ele mandou. De qualquer forma, muito grato!
    Abraço, Nik.

  15. Marcelo Rosa Henriques disse:

    Mas Amigos , o Que Aquele Gordini e Aquela Rural Fazem Ali ?
    Eram Carros Novos Ainda Naquele Longiquo 1971 , Não Acham ?
    Creio Que Naquele(s) Ano(s) , Ninguém Podia Imaginar Que Tais Carros Seriam no Futuro , Verdadeiras Jóias Ráras !

  16. bill disse:

    caros amigos ,que loucura mas era assim ,velhos carros discriminados e não a muito tempo,eu lembro
    que na década de 90 você trocava tv ,radio espingarda por dodges ,galaxies ,mavericks e opalas
    pena que na época eu não tinha nem isso para trocar,era eu falar nesses carros e me chamavam de louco

  17. Bruno Porto Oliveira disse:

    Aquele plymouth ali certamente é um Fury 1957, o carro do filme “cristine, o carro assasino”.

    Sonho aquele carro ali, mas naquela época, estes carros da foto não valiam nada, sucata total.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s