O Ford 51 do pai do Rui.

Veja você como são as coisas. Um linha que escrevemos às vezes vai mais longe do que poderíamos imaginar. Cada mensagem carrega seus mistérios, mas quem a recebe têm outros tantos. Raras vezes nos é dado conhecer quais se formam a partir deste encontro.

Essa minha empreitada de encontrar um Ford shoebox, chegou até o amigo Rui Pastor, de São Paulo, que generosamente dividiu comigo um pouco de sua história.

Para abreviar minha ladainha e deixar que o próprio Rui conte a sua história com este automóvel, digo que me sinto feliz por de alguma forma, em algum momento, estar me conectando a pessoas que não conheço e oxalá um dia venha a conhecer, por conta de fragmentos de sentimentos tão caros para nós como estes, que só o automóvel pode construir, ao longo da vida.

O Rui têm razão, você já vai ler, o automóvel não é importante. Concordo e escrevi para ele, em resposta, que a vida o é muito mais, e ela é feita de algumas boas memórias que por suas vez são alimentadas pela saudade. Às vezes, muita saudade. O automóvel para mim é isto, parte importante das minhas saudades.

Obrigado, Rui, pelas palavras. Muito obrigado.

Com a palavra, o Rui Pastor.

“Quando vi sua intenção de compar um Ford 49 – 51, não pude deixar de ficar tocado. Eu já havia dito num outro post que eu tinha aprendido a dirigir neste carro.
Meu pai teve um desde zero km (um Custom e uma Pick-Up F1, também 51). E ficou com o Custom até 1995-6, depois de tentar reformar em casa (a F1 foi vendida em 2005, com 1,7 milhão de Km rodados). Por conta de uma enfermidade de minha mãe, ele vendeu o Custom sem completar o seu sonho. Mas isso não importa, o que importa são as duas fotos que eu encontrei: uma, eu me “achando ao volante”; noutra, eu e meu irmão mais velho, Fábio.
É isso. Desejo sorte na sua empreitada… e se eu souber de algo, te aviso. Ah, sim, já ia esquecendo: meu pai ainda deve ter algumas peças originais deste carro…”

Agora danou-se, Rui. Vão todos querer comprar um Ford 1951.

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6 comentários sobre “O Ford 51 do pai do Rui.

  1. Mário Buzian disse:

    Nik,

    Lendo essa estória do Rui, me veio imediatamente à lembrança um acontecimento…
    Por volta de 2000/2001, eu participei de um processo seletivo para uma vaga no Banco Honda, no Ibirapuera/SP, bem perto do prédio do DETRAN.
    Chegando lá, a consultoria era em uma belíssima casa dos anos 40, com a fachada original, mas toda “modernosa” por dentro, com o estilo da empresa…
    Em certo momento, quando eu comentei sobre a minha paixão por carros antigos, um dos entrevistadores, que era sócio da empresa, olhou para a moça, e pediu que eu o acompanhasse depois de terminar o processo.
    Fomos até a parte de baixo da casa, ele quis me mostrar algo que só poderia ser visto pelo lado de dentro da casa, através de um vitrô, que ra bem alto (pegou uma escada para que eu subisse).Esse local era uma garagem, daquelas bem antigas, com portas de comércio, totalmente fechada, e adivinha o que tinha dentro…
    O sujeito disse que precisava de mais espaço, que a casa era alugada, e se eu sabia como persuadir o seu dono a “tirar esse monte de entulho daí”…Eu quase caí da escada, meu amigo…dentro daquele espaço estava um FORD 51, Customline, coupé, com as placas amarelas, e certamente uns 50 kg de poeira em cima dele…
    O carro me pareceu totalmente novo, lembro que era verde escuro, e certamente não via os ares da rua por pelo menos uns vinte anos…
    Claro que eu peguei o contato do dono da casa (ele morava a uns dez quarteirões dali), e na saída fui direto em sua casa, já na esperança de colocar essa raridade na minha garagem !!!
    Chamei pelo homem, e ele veio, um senhor na casa dos seus 60/70 anos, e quando perguntei sobre o 51, ele abriu um largo sorriso, e disse que aquele carro tinha sido presente de formatura da faculdade (ele estudou engenharia na POLI-USP – uma das primeiras turmas) de seu pai, e que nunca se desfaria desse carro.
    Quando eu lhe disse que era um pecado manter uma preciosidade dessas assim, enclausurada, ele me confessou que seus filhos não queriam que ele andasse nas ruas com um “carro caquético” daqueles, e ele achou por bem guardá-lo devidamente para quando ele tivesse mais tempo e restaurasse o mesmo…Esse Ford foi “emparedado” em 1973,meu amigo !!!!!
    Perguntou se eu conhecia alguém que pudesse deixá-lo em estado de zero novamente, e eu passei alguns contatos para ele…
    O homem agradeceu, deixei um cartão meu avisando de que caso ele quisesse vender o auto, que eu teria interesse.
    Passou-se uns dois anos, e casualmente fui visitar um amigo que morava na mesma rua da consultoria…Foi quando tentei achar a casa (que ficava numa esquina), que eu vi que haviam feito um edifício no lugar…
    Fico imaginando se o dono do Ford 51 conseguiu colocar o carro em dia novamente, ou se algum sortudo ficou com mais essa cápsula do tempo…
    Deixo aqui os meus parabéns pelas belas fotos e a linda estória do Rui !!!
    Grande abraço, Nik !!!!

  2. Nikollas Ramos disse:

    Que coisa. Isso aconteceu muito.
    Em homenagem a esta sua bela história, que como sempre ilustra e acrescenta muito aos meus farelos de prosa, vou postar uma foto que tenho guardado há dois anos e que, de certa forma, resume este fim desnecessário que tantos automóveis encontraram.
    Se não podemos fazer um museu a tempo de abrigar cada carro e sua historia, podemos ao menos guardar as histórias.
    Imagina se cada um pudesse ter deixado um blog escrito com estas histórias e algumas fotos? Estaria preservada a memória do carro no Brasil.
    Eu não sei como será o acervo de automóveis antigos do Brasil daqui a 50 anos. Mas eu percebo duas tendências: uma, muitos carros irão desaparecer na contramão do mercado, por incapacidade de seus donos manterem e cuidarem dos mesmos com as características originais o que os afastará do próprio mercado. Duas, será um mercado com ar de globalizado pela grande afluência de carros importados dos Estados Unidos e Europa, por isso descaracterizado do carro genuinamente nacional, ou fabricado ou importado para aqui quando novo. E isso é ruim.
    Eu estou na captura de um Ford aqui no Rio, que descobri algumas semanas atrás. Carro carioca, usado aqui desde novo e por isso para mim teria um valor especial, compreende? Ainda não posso falar mais, o jogo de gato e rato começou e pode ser inclusive que não dêm em nada. Mas é esse tipo de valor que eu também quero preservar. Se não, aí estão as fotos do Rui que, desconfio, é o que de melhor vai sobrar daqui 50 anos. Os bons carros estõa cada vez mais trancados, guardados, pois que adquiriros por pessoas abastadas cujos valores não são sempre o do genuino colecionador, que curte, anda, arranha, conserta e ama seu carro. Os carros já estõa sendo guardados nas salas de estar das pessoas, Mário! Imagine em 10 ou 20 anos? Os carros vão desaparecer novamente. Como em 1973, hoje os carros já estõa sendo emparedados novamente, e isso é ruim. Como o Luís escreveu outro dia, os carros da década de 30-50 estão guardados, no que respondi que com isso tiramos do jovem a chance de conhecê-los, amá-los e preservá-los. Afinal, só se gosta daquilo que se conhece.
    Abraço fraterno, Nik.

  3. Mário Buzian disse:

    Nik,

    Novamente sou inclinado a concordar contigo, infelizmente talvez os meus netos não terão a chance de conhecer um legítimo carro nacional, criado e desenvolvido para esse mercado, assim como nós tivemos em nossa juventude…E acrescento à lista de importados os chineses e indianos, que devem afluir em massa por aqui como os responsáveis pela “modernização” de nossa frota…
    Esse é um dos fortes motivos de eu querer recuperar alguns carros, sei que tenho cada vez menos tempo para isso, e sempre fico impressionado com a curiosidade e o carinho das crianças para com o carro antigo…Por várias vezes fui testemunha desse emocionante encontro, e nos olhos desses pequenos é que vemos um futuro, certamente bem mais dificíl que o nosso, para dar continuidade à esses resgates…
    Muito provavelmente existirão “sítios auto-arqueológicos” onde os “ecochatos” torcerão seus narizes, mas onde os verdadeiros “antigotusiasatas” vão se deleitar, assim como nós fazemos quando caímos nos desmanches, oficinas, garagens e museus espalhados por esses rincões…
    Se pudermos deixar ao menos esse gosto de óleo velho misturado com ferrugem (todos altamente tóxicos, mas não letais em doses controladas), cheeseburger e cachorro-quente com Coca-Cola (nada de light,zero…a vermelhinha original mesmo !!!), e horas debruçados em antigas fontes de sabedoria, tenho certeza, nós fizemos a nossa parte, e com louvor !!!
    Big hug from the south of the border, my friend !!!!

  4. ayrton del cistia disse:

    sou um apaixonado pelos carros antigos. tenho 70 anos e a minha infnacia e juventude foi passada entre FORDS, CHEVRO-
    LETS, OLDS, CITROENS 11 LEGÉRES, FIATS 1100 e outros ines-
    queciveis. o carro da minha juventude foi um CHEVROLET 1951
    POWER GLIDE que era da família e eu o usei durante todo o pe-
    ríodo de minha faculdade, até meu casamento. hoje tenho como
    todo brasileiro um carro pópular pa\ra uso diário e um Fusca an-
    tigo p/ matar a saudade mas o sonho de voltar a ter um 1951
    ainda não morreu. Ayrton Del Cistia

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