O satélite do capeta em Viçosa.


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O primeiro automóvel

É o referido cronista quem nos conta o que aconteceu em Viçosa quando a primeira dessas máquinas chegou à pequenina cidadezinha do interior mineiro, atualmente com a quarta maior relação veículo/habitante de Minas Gerais, numa estimativa de um carro para cada quatro habitantes: “Foi em 1920, época da Quaresma, se não nos falha a memória. A propósito, não resistimos à tentação de contar os episódios comentados naquele época, resultantes da aparição dessa carruagem misteriosa e fantástica, em correria louca, desatinada, rua abaixo, rua acima, gelando de pavor a matuto ingênuo e crédulo.Havia nos narradores do fato arredios de assombro, contrações de medo que lhes torciam a fisionomia e esbugalhavam os olhos. Contavam o caso, perplexos, varões ‘que nem por brincadeira mentiam’, como Chico Marreco, Manuel Gregório, Zezé da Estiva, Vicente Surdo e Juca de Sá Zeca. Corajosos, inimigos de patranha, nunca tiveram medo de careta e ‘viram com os próprios olhos’.
Naquele fim de marco começara a chover logo à tardinha e o vento sul soprava com rajadas violentas e geladas. A luz fraca das lâmpadas elétricas, trepidantes, mal resistia à tempestade e, bruxuleando aqui e acolá, agonizava na grande noite sem estrelas. Às 10 horas aproximadamente, tiritando friorenta, a população ia fechando as portas para recolher-se e momentos depois, a pacata cidade adormecia açoitada pelo chicote impiedoso da ventania. Somente na mansão patriarcal, do Nico Lopes, onde habitualmente se jogava víspora, notava-se um rumor desusado. Já na antevéspera, ele dizia, afiando navalhas e epigramas, que a Quaresma daquele ano prognosticava surpresas inenarráveis e, por isso, andava, sorumbático, pelos cantos, exorcismando… A família, sobressaltada, já lhe havia prescrito um vomitório de poaia e chá de folhas de funcho. A verdade, porém, é que naquela noite, os da casa não puderam dormir com as ‘crises’ do Nico…
Fora, a noite, como uma enorme essa armada sobre a terra, infundia pavor. Os relógios marcavam, exatamente, meia noite, quando se produziu a ‘desgraça’: Aqueles que, dentro de casa, velavam, ou por insônia ou à espera que saíssem os parceiros, foram abalados pelo ruído de uma carruagem misteriosa, correndo a toda a brida. O Lulinha, autor intelectual da ‘assombração’, premeditada com todos os requintes diabólicos, foi o primeiro a ouvir os ‘bufos’ e o rumor dos cascos da ‘mula’. José Caboclo, oficial de diligência, que desconhecia a palavra medo, foi o único a arriscar os olhos e o nariz, portas a fora, para ver. Negar o que santo Deus? -dizia enfaticamente. ‘A mula era maior do que um touro, tinha a cor de um caixão de defunto, rinchava como uma égua braba e vomitava fogo pela boca e pelos olhos’… E encazinava-se de raiva quando alguém o desmentia.
A verdade é que ela galgou o morro até a casa do Vitarelli, voltou, tornou a subir até a porta do Cemitério, rodeou o Santo Cruzeiro, desembestou rua abaixo, passou em frente a Igreja de Santa Rita, desceu rumo à ponte, e não mais foi vista quando atingiu as proximidades da casa onde vivia o velho Antônio Martins, afamado rezador de ladainhas… O cabo do destacamento foi acordar o Barão, delegado de polícia, demandando o local, acompanhado de praças, para averiguar o fato. De lá voltaram arrepiados, trêmulos, cabisbaixos. Afirmavam que nada haviam encontrado, mas sentiram no trajeto, cheiro de enxofre queimado – satélite do capeta… O notívago Honorino de Mello sustentava que o animal era mesmo do outro mundo. Já o Totônio Costa Val, cético, irônico, murmurava sorridente: ‘Isto tem dedo de algum Jacó’. No dia seguinte corria a notícia que o Joaquim Ilhéu, cabra desabusado, alvejara a tiros de garrucha, na estrada da Piúna, a ‘mula sem cabeça’, tendo o ‘chaffeur’ Aristides Silveira, que dirigia o veículo, escapado ileso por milagre”.

Extraído sem autorização do extraordinário blog O Passado Compassado de Viçosa, de José Mario Rangel.

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4 comentários sobre “O satélite do capeta em Viçosa.

  1. Dionisio disse:

    Cara corajoso. Em vez de apresentar o carro de dia, na praça central com bandinha para toda a população, preferiu andar pelas estradinhas de terra à noite para levar tiro de algum fazendeiro. HeHe

  2. Nikollas Ramos disse:

    RSRSRSR! Seja bem vindo, José. Se for da terrinha e quiser contar outras histórias, ligadas ao automóvel e seus personagens em Viçosa, fique à vontade. Abraço, Nik.

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