Do Rio a Juiz de Fora em 1920.

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O David desta vez se superou, sem exagero. Depois dos anúncios extraídos da “Revista Eu Sei Tudo”, do início do século passado, agora ele saca uma pequena matéria dando conta da grande jornada empreendida pelo senhor La Saigne nos idos de 1920. Mereceu registro pela Revista o fato dele ter quebrado o próprio recorde anterior, num raid do Rio de Janeiro à Juiz de Fora, desta vez em incríveis 13 horas e 46 minutos, ao contrário das anteriores 18 horas!

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Se você acha que fato como este não é notícia, está ruim da cuca e não imagina o que deve ter sido tal façanha num país como o Brasil e suas estradas, ou falta delas, 90 anos atrás. Também achei muito interessante – e se alguém puder dar uma luz sobre isso seria bem-vindo – o trajeto que ele adotou,  com as localidades e nomes que não sobreviveram à expansão do subúrbio da cidade do Rio ao longo do século XX.

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Ele saiu de algum lugar do centro do Rio de Janeiro às 5 horas da manhã em direção à Pavuna, lá chegando às 5:50h, mais ou menos o tempo que se gastaria hoje com trânsito ruim. A Pavuna de então, li outro dia, ainda era uma imensa fazenda nos limites do Rio de Janeiro. Da Pavuna, e é ai que a coisa fica interessante, ele se desloca para um tal Arraial da China, lá chegando às 6:50, portanto ainda deveria ser na baixada fluminense esse arraial. Dali ele parte para a Fazenda Santa Cruz, que não pode ser o atual distrito industrial de Santa Cruz, que seria distante até para o itinerário mais improvável que se possa imaginar para Petrópolis. Deveria ser mesmo uma fazenda no caminho da serra. Na etapa seguinte ele gasta muito tempo, chegando a uma tal Raiz da Serra às 14h. Em Petrópolis, deve ser um erro, o anúncio diz que ele chega às 13:30h. Deve ter sido às 18:30h. Dali parte para Juiz de Fora de noite, o que me parece um absurdo, considerando que não existia a maravilhosa BR-040 e o caminho é em aclive permanente até Juiz de Fora. Mas ele fez, e chegou lá em hora não informada. Como o retorno de Juiz de Fora até Petrópolis, de dia eu creio, foi feito em 3 horas, a ida de noite deve ter gasto mais. De qualquer forma, aí está o registro da façanha do senhor La Saigne nos idos de 1920. Por qualquer ângulo que se olhe, é um feito e tanto.

Atualização deste Post. Como se vê pelos comentários detalhados e ilustrados do Dionisio, abaixo, está refeito o itinerário até Petrópolis, no Rio de Janeiro de 1920. Para melhorar, ele ainda dá a dica de um site muito interessante, o “Mapas Antigos, HIstórias Curiosas”, que refaz o trajeto em seu conteúdo histórico e importância para a cidade do Rio de Janeiro, como se pode ver aqui neste link. O mapa segue abaixo e em breve eu atualizo aqui em cima de um mapa mais moderno, tipo Google Maps, a aventura do Sr. La Saigne até Petrópolis.

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14 comentários sobre “Do Rio a Juiz de Fora em 1920.

  1. Dionisio disse:

    Vou arriscar alguns palpites:

    *Pavuna pode ser o rio que faz divisa entre os municípios do Rio e Caxias e cruza com a Avenida Presidente Kennedy. Esta avenida era parte do antigo caminho para Petrópolis antes da Rod. Washington Luiz e alguns de seus trechos faziam parte da Estrada Real;

    *Fazenda Santa Cruz provavelmente deve ser o hoje bairro Santa Cruz da Serra, onde se localiza o pedágio da BR-040 antes da subida da serra;

    *Raiz da Serra é onde se localiza o inicio da antiga Rio-Petrópolis (RJ-107) e o ponto final da antiga Estrada de Ferro Mauá (primeira ferrovia do Brasil);

    * O trecho entre Petrópolis e Juiz de Fora parece ter sido percorrido pela Estrada União e Indústria (primeira rodovia macadamizada da América Latina, inaugurada em 23 de junho de 1861 por Dom Pedro II).

  2. Dionisio disse:

    Pode ter sido o bairro da Pavuna mesmo.
    Pouco antes de existir a Av. Brasil e a Rod. Washington Luiz, o caminho feito do Rio de Janeiro para Petrópolis era pela Av. Automóvel Clube (hoje Avenida Pastor Luther King Jr.), que corta o bairro da Pavuna.

    É interessante ver pelos mapas atuais que este caminho existe até hoje: começa na Av. Dom Helder Câmara (antiga Av. Suburbana), Estr. Velha da Pavuna, corta o subúrbio do Rio de Janeiro pela Av. Pastor Luther King Jr., na Pavuna a avenida volta com o nome original de Av. Automóvel Clube, Av. Joaquim da Costa Lima ( interessante que nessa parte do trajeto, esta avenida localizada no município de Belford Roxo cruza com uma estrada chamada DO CHINA), Av. Presidente Kennedy ( que passa pela Igreja de Nossa Senhora do Pilar, um dos pontos iniciais do caminho novo da Estrada Real), parte da Rod.Washington Luiz, Av. Automóvel Clube reaparece (em Santa Cruz da Serra) e termina na Estr. Velha da Estrela (subida da serra).

  3. Carros Antigos disse:

    Dionisio, que aula! Aprendi muito e vou organizar um mapa com as informações mais do que plausíveis que nos deu e publico amanhã. Obrigado e abraço, Nik.

  4. Carros Antigos disse:

    Dionisio, muito bom. E este site, minha perdição: mapas antigos. Me lembro da exposição bancada pelo falecido Banco Safra, os tesouros dos Mapas, e o livro equivalente. Chance única na vida. Por acaso voc6e visitou esta exposição aqui no Rio?
    Ah, e post atualizado. Muito obrigado pelas dicas.
    Abraço, Nik.

  5. Dionisio disse:

    Sou um apaixonado por automóveis, história e pelo estado do Rio de Janeiro. Já reparou que sou um leitor assíduo de seu ótimo blog. HeHe
    Antes da internet eu era “rato” da Biblioteca Nacional…
    Sobre a exposição, infelizmente não tive o prazer de visitar.
    Qualquer coisa que eu puder ajudar disponha.

    Abraço.

  6. Carros Antigos disse:

    Não visitou? Poxa, pelo seu gosto perdeu muita coisa, sinto em te informar. Mas o livro ainda se encontra por aí, e este é outro tesouro. Formato, papel, impressão, tudo do bom e do melhor. Se todo banqueiro brasileiro fizesse o mesmo que o dono daquele, estaríamos mais ricos e ilustrados de conhecimento.
    Eu tô contigo e não abro, adoro o meu Estado, Automóveis e História. O automóvel é um elemento de trânisto, com o perdão do trocadilho, entre toda a história do século XX, não importra onde e quando se esteja olhando, ele vai estar lá.
    Este site que tu indicou, uma preciosidade.
    Mudando de “saco pra mala”, como se diz, eu lamento que o pessoal dos fotologs sobre a cidade do Rio, cada um melhor que o outro, tenha optado pelo serviço do Terra, em sua maioria, que é muito restrito e difícil de ser utilizado. Além das imagens em baixa, um pecado.
    Eu também frequentei a BN, mas hoje ela mudou muito. Em 1990 eu tive acesso a originais que hoje, se já não foram furtados, estão guardados para a “elithe kultural e bhurokratika” deste país. Mas ainda espio por lá. Hoje gosto mais dos CPDocs dos jornais da cidade. Especialmente o JB, se quiser um dia vamos juntos lá.
    Abraço fraterno, Nik.

  7. Marcos Davi disse:

    Saudações meus caros,

    Sou Historiador e pesquisador da Baixada e também aficcionado por carros.
    Assim que vi a matéria fiquei muito contente com esa descoberta.
    Moro em Pavuna e conheço o caminho utilizado pelo aventureiro em
    tal empresa. É sim pela Pavuna que ele passa, acompanhando a estrada de ferro Rio d’Ouro hoje substituída pelo metro na parte do Rio de Janeiro e desativada ou inexistente após isso. Seguindo até o local chamado de três setas em São João de Meriti entra-se à direita passando por Lote XV que chegará em Santa Cruz da Serra. Já fiz o trajeto de carro que ainda mantém o traçado da antiga estrada.

  8. Marcos Davi disse:

    Saudações meus caros,

    Sou Historiador e pesquisador da Baixada e também aficcionado por carros.
    Assim que vi a matéria fiquei muito contente com essa descoberta.
    Moro em Pavuna e conheço o caminho utilizado pelo aventureiro em
    tal empresa. É sim pela Pavuna que ele passa, acompanhando a estrada de ferro Rio d’Ouro hoje substituída pelo metro na parte do Rio de Janeiro e desativada ou inexistente após isso. Seguindo até o local chamado de três setas em São João de Meriti entra-se à direita passando por Lote XV que chegará em Santa Cruz da Serra. Já fiz o trajeto de carro que ainda mantém o traçado da antiga estrada.

  9. Edson macedo Ribeiro disse:

    A primeira ligação Rio Petrópolis por estrada carroçavel partia do Porto da Estrela, no encontro dos rios Inhomerim e Saracuruna (hoje em Magé) e seguia por Inhomerim, Piabetá, Fragoso, Raiz da Serra (Fazenda da Mandioca), Meio da Serra e Alto (Petrópolis, chegando à Rua Teresa. Era o antigo caminho do Proença, de 1724. Esta era muito íngreme na serra tendo sido calçada em 1810, a mando de D. João VI, no estilo pé-de-moleque por Aureliano Coutino de Oliveira. Este calçamento está lá até hoje e pode ser acessado, entrando-se à direita, ao lado da igreja de Raiz da Serra, atravessando-se o rio Caioaba. Em 1850, o governo da Província iniciou por contrato a construção da “Estrada Normal da Estrela”, que ligava o Porto da estrela à Raiz da Serra. Ao mesmo tempo, por contrato com Procópio Ferreira iniciava a “Estrada Normal União e Indústria”, que partia da Raiz da Serra (hoje Inhomirim, em homanagem à antiga Freguesia), e alcançava Juiz de Fora. Subia pela margem direita do rio Caioaba e está em uso até os dias de hoje. Em 1853 era inaugurada a ligação ferroviária entre a praia de Mauá e a Raiz da Serra. Assim, as viagens para Petrópolis se fazia num primeiro trecho marítimo, até o cais de Guia de Pacobaíba, num segundo ferroviário, pela estrada de ferro do Barão de Mauá e num terceiro nas diligências da União e Indústria, de Procópio Ferreira. Nessa época haviam várias outras estradas e caminhos que ligavam fazendas e freguesias. Uma delas, a mais antiga, a estrdada Velha da Pavuna, que fazia parte da Variante de Terra Firme da Estrada de Minas. Realmente partia do antigo caminho de São Paulo, em Inhaúma, e seguia em direção à Pavuna, pelo traçado da dita estrada e da posterior Automóvel Clube. Da Pavuna o caminho seguia para o engenho do Brejo (Belford Rocho), mas havia uma variante que fraldeava o Morro do Carrapato (Vila Rosaly) e buscava as terras dos Beneditinos (é o atual traçado da automóvel Clube até pouco depois da ponte do Sarapuí). Dali, no local denominado Três Setas (hoje Jardim Redentor), entrava à esquerda, onde alcançava a fazenda do China (Póximo ao Parque Fluminense), chegando ao Lote XV pela antigo caminho dos Padres de São Bento. Do Lote XV alcançava o aterrado de Passagem (caminho dos Beneditinos que ligava sua fazendo ao Pilar), quando atravessando o rio Iguaçu, chagava ao Pilar. Dali bucsava a Fazenda SãntaCruz (hoje Santa Cruz da Serra) e dali a Raiz da Serra) Antes de construir a sua estrada em 1926, o Automóvel Clube estudou e melhorou em parte este caminho para seu projeto de ligar o Rio a Petrópolis. Assim financiou diversas aventuras automobilísticas. Anos depois iria aproveitá-lo quase que toitakmente ao construir a estrada Automóvel Clube.

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