Chandler Motor Car, Mesbla e a Rio Branco.

Recebi do prezado David Marques estes anúncios de 1918 de um certo automóvel Chandler, importados e comercializados por uma empresa que eu não conhecia, uma tal Mestre et Blatgé S.A. aqui do Rio.

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O David escaneou estes anúncios dos Chandler de uma edição de 1918 da Revista “Eu Sei Tudo” e mandou para nós. A gentileza dele me trouxe mais informação de primeira sobre a história do automóvel no Brasil.

revista_eu_sei_tudoA Revista “Eu Sei Tudo” foi um típico magazine ilustrado, publicado no Rio de Janeiro a partir de 1917. Segundo o David, esta edição dos anúncios é de 1918. Ele prometeu que vai resgatar os outros exemplares que têm, vamos aguardar.

Outra informação que me chamou a atenção nos anúncios foi o importador, uma certa Mestre et Blatgé S.A. da qual eu nunca tinha ouvido falar. Até eu pesquisar no Google e descobrir que na verdade este foi o nome original da Mesbla S.A., maior rede de varejo do Brasil por décadas, de origem francesa e tradicional importadora de máquinas e equipamentos, que eu tive inclusive o prazer de frequentar, no endereço citado na Rua do Passeio, aqui no centro. Ainda guri, me encantei algumas vezes com as vitrines e a decoração de Natal da Mesbla, e me distraia vendo automóveis, lanchas e pequenos aviões à venda. Quem compraria aquilo?, eu gostaria de saber. Hoje, cá estou, tentando imaginar quem teria comprado um Chandler na mesma Mesbla do Passeio em 1918.

chandler_logoOs Chandler foram fabricados em Ohio, USA, entre 1913 e 1929, quando a produção foi interrompida pela compra de suas instalações e marca pela Hupp Motor Works, famosa por fabricar o Hupmobile. Não me surpreende que tenham chego até o Rio de Janeiro; me surpreenderia se soubesse que ainda há um vivo guardado por aí.

A Chandler foi razoavelmente bem sucedida em seu negócio, chegando ao 13º lugar em vendas em toda a América do Norte nos anos 20. Construiu automóveis reconhecidos por sua resistência e durabilidade. Tanto que em 1915 um Chandler viajou de Tijuana, México, até Vancouver no Canadá, percorrendo uma distância de 1.889 milhas (uns 3.000 km) sem parar uma única vez para reparos. Hoje a Chandler ainda existe mas em outro ramo, mas eles não esquecem sua história. Descobri também um clube dos donos de Chandlers aqui no Hemmings, e a história destes automóveis dos primeiros anos está bem registrada ali.

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chandler_automobiles03O anúncio do Chandler que o David nos enviou nos lembra que, em seus primórdios, o automóvel era substancialmente arte e status, ofício ao qual muitas empresas se lançaram nos primeiros anos e das quais pouco ou nada restou, veja o caso da GM, Chrysler e Ford e da própria Chandler, sobreviventes daquela época.

Ainda, este anúncio enriquece minha leitura de fotos desta época aqui do Rio de Janeiro, pois agora eu vou sempre me perguntar se havia um Chandler andando por ali em algum lugar. Aliás, a Rua do Passeio, onde foi a sede da Mesbla, digo, Mestre et Blatgé, termina hoje na Avenida Rio Branco, altura da Cinelândia. Como na época em que foram fabricados os Chandlers a Rio Branco ainda era mão dupla, eu aposto que quem ia retirar o seu automóvel novo na Blatgé aproveitava para, descendo a rua do Passeio, dobrar à esquerda e aproveitar toda a movimentação e egito do belo boulevard que já foi um dia a avenida Rio Branco, a bordo do seu novo e reluzente Chandler.

chandler_light_weights_model_19_touring_1919Ao lado, a foto de um Chandler de 1919, caso você veja um pela rua e não saibda do que se trata.

Abaixo, para exercitar sua imaginação, algumas fotos da Avenida Rio Branco, vindas da Galeria do Rio Passado e do absolutamente fantástico post do Kalipso via SkyScraperCity. A eles e ao David, meu muito obrigado.

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9 comentários sobre “Chandler Motor Car, Mesbla e a Rio Branco.

  1. David Marques disse:

    Nik, me sinto bastante honrado em ver meus scans publicados em um artigo que regasta uma parte do início da história do automóvel no Brasil.

    Entretanto, eu trago péssimas notícias. O tal classificador que eu lhe disse foi enviado por minha mãe à uma usina de reciclagem de papel, portanto das duas, uma: ou alguém viu, pegou e ficou com as peças (menos mal), ou viraram papéis vegetais… Que burrada que eu fiz… Maldita idéia!

    Daí foram embora algumas peças da Willys, Ford e Chevrolet, que pelo menos foram scaniadas (ufa!). Ainda bem todas do Chandler que eu ganhei ainda estão comigo, e ainda tenho Studebaker e Packard, ambas de 1920. As da Studebaker ainda precisam ser scaniadas.

    Também achei em meus arquivos (pra não dizer bagunça) as páginas de uma edição da antiga revista Manchete, lá de 1969, com uma matéria falando sobre a indústria automobilística brasileira ilustrada por diversas fotos raríssimas de fábrica da Ford, Chevrolet, Chrysler, FNM, Scania-Vabis, CBT, Puma, etc…

  2. Carros Antigos disse:

    Ôpa, não há de quê. Eu que agradeço. Agora, essa da usina de reciclagem, hehehe, foi boa! Faz mal não, o resto tá guardado.
    Veja, esse tipo de detalhe contido em uma revista – o anúncio de um carro que não existe há décadas – é importante pelo que nos diz mas também pelo que não diz. Ilustra, enriqeuce os horizontes. Quiça alguém um dia precise desta informação, se houve ou não um Chandler no Rio, ela vai estar por aí. Ou, se tudo der errado, pelo menos a gente aprende mais um pouco e se distrai.
    Quem sabe – seria ótimo – não aparece alguém aqui em condições de afirmar se estes automóveis foram ou não populares por aqui na década de 10 e 20, ou ainda, se sabe do paradeiro de algum no Brasil? De resto, também foi bom por ter nos relembrado da saudosa Mesbla que, definitivamente, foi muito importante para a história do automóvel no Brasil, deivido à importação de automóveis no qual sempre foi especializada e reconhecida. Sobre isso, seus scans da Chevrolet eu publico oportunamente, pois me deu vontade de encontrar mais coisas por aí sobre a Mesbla e o automovel. Quem sabe?

  3. Guilherme Gomes disse:

    David, ótimos guardados. Muito obrigado por compartilhá-lo conosco. Se por algum acaso, estes papéis correrem o risco de tornarem-se “ambientalmente” corretos, doe-os ao Nik…
    Espero ansioso os próximos, principalmente sobre os Studebaker.
    material da época, existem muitos, mas em inglês…
    material brasileiro é difícil e pouco prestigiado, mas não em nossos blogs!!

    Quanto ao Chandler conhecia-o por fotos, grata a informação sobre revendedor aqui no Brasil. Não sei de nenhum sobrevivente, certamente foi vendido à época, mas nosso país é tão grande e há tanto por descobrir, que ainda existe a possibilidade de eles existeirem sim!!

    abraço,

  4. Caio Vilhena disse:

    Sei que estou um bocado atrasado vendo esta notícia, mas eis que apenas a li agora… Em uma pesquisa para o site dos carros da família que estou desenvolvendo.

    “Quiça alguém um dia precise desta informação, se houve ou não um Chandler no Rio, ela vai estar por aí. Ou, se tudo der errado, pelo menos a gente aprende mais um pouco e se distrai.
    Quem sabe – seria ótimo – não aparece alguém aqui em condições de afirmar se estes automóveis foram ou não populares por aqui na década de 10 e 20, ou ainda, se sabe do paradeiro de algum no Brasil? ”

    Posso afirmar que existiram sim Chandlers no Rio no final da década de 20, e Carlos Nunes Vilhena parece ser o dono do ultimo no Brasil. Ele mora no Rio de Janeiro, o carro esta em perfeito estado e raramente da uma volta por São Cristovão, onde fica o galpão.
    O dono já escreveu um livro, no qual conta como adquiriu o modelo e mais detalhes de sua restauração, entre vários outros carros do passado. Enquanto o site que desenvolvo não fica pronto, é a melhor indicação que posso dar para conhecer mais da coleção.

    Link com fotos e perfil tanto do dono ( Carlos Vilhena ) como do livro e do carro.
    O chandler é o carro azul na primeira foto do site.
    http://www.autoclassic.com.br/antigomobilista_marco_06.asp

    Abraços e espero que mesmo tardia tenha gostado da informação.
    Qualquer dúvida me escreva:

    caiovilhena@superig.com.br

    Abraços
    Caio Vilhena

  5. Franklin disse:

    Este anúncio do Chandler é um pedaço da história. Noel Rosa adquiriu um, pelos idos de 1931, segundo conta sua biografia.

    “Entre outras coisas porque Noel acaba de comprar um carro. Sim, um Chandler preto, ano vinte e poucos. A que vai chamar de Viramundo. Grande, com cadeirinhas ao lado, meio descascado numa das portas, capota de lona ameaçando esfrangalhar-se. Um carro velho, enfim, mas o que ele pôde comprar com o dinheiro ainda minguado que tem ganho com a música.”

    O carro certamente deu bastante dor de cabeça a Noel, e olhe que ele tinha muitos amigos motoristas de praça para lhe ajudar com as lides mecânicas. E ele foi atrás de Francisco Alves para negociar um carro menos problemático, pois Chico comprava carros usados em São Paulo que os revendia pelo dobro do preço no Rio:

    “Noel Rosa começa a perder a confiança no Viramundo, seus enguiços cada vez mais freqüentes. Ainda outra noite, um amigo teve de abrir o guarda-chuva pelo buraco da capota para evitar que o temporal acabasse com a serenata que faziam dentro dele. Quem sabe não pode trocar o Vira-mundo? A vontade de ter novamente carro – não exatamente novo, mas pelo menos não tão velho quanto o Chandler – faz com que procure o cantor.”

    Noel pagou um certo chevrolet cor de azeitona com sambas, a sovinice do Chico Alves estremecendo as relações com o Senhor da Voz… E o Chandler?

    “O Viramundo lhe dá dores de cabeça demais. Tantas que um dia, ao bater com ele num poste da Rua Visconde de Santa Isabel, o deixará lá para sempre. Que alguém trate de rebocar o velho Chandler. Sim, vai aceitar a proposta. Tem até um nome para o novo carro: Pavão.”

  6. carrosantigos disse:

    Franklin, sensacional! De qual biografia veio estas informações? A do Caola? Eu tenho uma história para contar sobre Noel e Carros, mas preciso de um amigo cujo avô deu uma certa hilária carona a ele. Muito obrigado pela história. Oportunamente volto ao Noel e seus automóveis. Sensacional meu amigo! Abraço e obrigado! Nik.

  7. Franklin disse:

    Nik, li sobre o Noel e seus carros na biografia “proibida” sobre ele, de autoria do João Máximo e do Carlos Didier, de 1990. Foi lançada pela UNB e devido a uma ação das sobrinhas do Noel, só teve uma tiragem de 15.000 exemplares. Noel foi uma figuraça, um gênio nosso, popular… Lendo sobre ele dá uma vontade enorme de ter vivido aquela época do Rio, anos 20 e 30, que período fantástico, o estouro do rádio, do cinema, do automóvel… Revolução até política, o entre guerras, nossa, que tempo louco… Lastimável não ter novas edições, mas pelo menos há um arquivo .txt na internet com o texto da biografia, pesquisando “Noel Rosa biografia txt” é batata. Salvando como PDF fica mais legível, é como se pode ler. Fiquei feliz de contribuir neste blog tão interessante, que merece os mais calorosos parabéns. Fico no aguardo agora das estórias do Noel, só pelo se comentário, promete! Abraços!

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