Arquivo da categoria: Rio de Janeiro e Brasil

Posto São Luiz, Curitiba, via AVA

O Guilherme está, junto com leitores de todo o Brasil, construindo a única iconografia do automóvel brasileiro que conheço. E isso não é pouco.

Um dia quando enfim se pretender contar algumas outras histórias a respeito da aventura do automóvel por estas latitudes, poucos livros e o blog Antigos Verde e Amarelo serão as únicas fontes primárias disponíves.

Pois, do jeito que se produz um nada de livros e pesquisas a este respeito no país, não haverão mais testemunhas vivas quando enfim alguém se dispuser a colocar em papel as aventuras e desventuras de duas ou três gerações de brasileiros e tantos imigrantes.

Todos já viram estas fotos lá no Antigos Verde e Amarelo, alguns conheceram o posto São Luiz em Curitiba, Paraná. Eu fiquei aturdido com estas imagens. Reproduzo-as aqui com a devida licença e reconhecimento ao trabalho do Guilherme e sua legião de colaboradores no AVA. Links originais e comentários indispensáveis aqui neste link e neste.

Tomei a liberdade de recortar as imagens para mostrar o detalhe do que foi a fachada inspirada no Ford 1936. Sensacional este posto, que idéia.

Alguém já viu algo parecido nos EUA? Eu não.

Automóvel Clube do Brasil, ontem e hoje.

Eu sempre que passo pela Rua do Passeio e topo com a sede do que um dia foi o Automóvel Clube do Brasil, fico pensando na quantidade de informação que eles tinham e que hoje não existe mais. Não sei se o arquivo deles foi parar na mão do estado, não acredito.
A primeira foto é do acervo da Life, início do século XX. A outra, peguei aqui no Google Street View. Santa decadência.
Será que existe lugar melhor para se erguer um museu da história do automóvel no país? Não está lá o Nasser em Brasília em tempo de ser despejado com seus automóveis e livros? A única coisa que eu quero longe de mim são os políticos de Brasília; o Nasser e seu acervo por estas bandas seria um excelente vizinho.

Ars est celare artem – 5

O Anjo exterminador

por Eduardo Galeano

Em 1992 houve um plebiscito em Amsterdã. Os habitantes desta cidade holandesa decidiram reduzir à metade o espaço, já bastante limitado, ocupado pelos automóveis. Três anos mais tarde, foi proibido o trânsito de carros particulares em todo o centro da cidade italiana de Florença, proibição essa que incluirá a cidade inteira à medida que se multipliquem os bondes, as linhas de metrô, os calçadões e os ônibus. Além, é claro, das ciclovias: dentro de pouco tempo será possível atravessar toda a cidade sem riscos, pedalando num meio de transporte que custa pouco, não gasta nada, não invade o espaço humano nem envenena o ar. Continuar lendo

Ars est celare artem – 4

Liturgia do divino motor

por Eduardo Galeano

Com de Deus de quatro rodas acontece aquilo que costuma acontecer com os deuses: nascem a serviço das pessoas, mágicos conjuros contra o medo e a solidão, e acabam pondo as pessoas a seu serviço. A religião do automóvel, que tem seu vaticano nos Estados Unidos da América, tem o mundo de joelhos a seus pés.
Seis, seis, seis - A imagem do Paraíso: todo norte-americano possui um carro e uma arma de fogo. Os Estados Unidos detém a maior concentração de automóveis e também o mais numeroso arsenal de armas num único país, os dois negócios básicos da economia nacional. Seis, seis, seis: de cada seis dólares gastos pelo cidadão médio, um é consagrado ao automóvel; de cada seis horas de vida, uma é dedicada a viajar de carro ou a trabalhar para pagá-lo; e de cada seis empregos, um está direta ou indiretamente ligado ao automóvel, e outro está direta ou indiretamente ligado à violência e suas indústrias. Continuar lendo

Ars est celare artem – 3

A Automovelcracia

por Eduardo Galeano

 

Sequestro dos fins pelos meios: o supermercado o compra, o televisor lhe assiste, o automóvel o dirige. Os gigantes que fabricam automóveis e combustíveis, negócios quase tão rentáveis quanto armas e drogas, convenceram-nos de que o motor é o único prolongamento possível do corpo humano. Em nossas cidades, submetidas à ditadura do automóvel, a grande maioria das pessoas não tem outra alternativa a não ser pagar para viajar, como sardinhas em lata, num transporte público destrambelhado e insuficiente. Continuar lendo

Ars est celare artem – 2

Vou-me embora pro passado*

por Jessier Quirino, “No rastro da Bandeira de Manuel”.

* Sugiro que você leia primeiro o poema a seguir e, se quiser, ouça o mesmo declamado pelo meu conterrâneo Salomão Schwartzman na BandNews FM neste link. Imperdível.

 

Vou-me embora pro passado
Lá sou amigo do rei
Lá tem coisas “daqui, ó!”
Roy Rogers, Buc Jones
Rock Lane, Dóris Day
Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado
Porque lá, é outro astral
Lá tem carros Vemaguet
Jeep Willes, Maverick
Tem Gordine, tem Buick
Tem Candango e tem Rural.

"Going" por Norman Rockwell

Lá dançarei Twist
Hully-Gully, Iê-iê-iê
Lá é uma brasa mora!
Só você vendo pra crê
Assistirei Rim Tim Tim
Ou mesmo Jinne é um Gênio
Vestirei calças de Nycron
Faroeste ou Durabem
Tecidos sanforizados
Tergal, Percal e Banlon
Verei lances de anágua
Combinação, califon
Escutarei Al Di Lá
Dominiqui Niqui Niqui
Me fartarei de Grapette
Na farra dos piqueniques
Vou-me embora pro passado. Continuar lendo

Exposição de Automóveis, Rio, 1925

PS: Atualizei o assunto a seguir, com outras fotos da Exposição do Rio de 1925, também publicadas pelo Globo, que você pode depois conferir neste link aqui. Não deixe de ver, se o assunto lhe interessa.

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Essa notícia é boa.

Eu não sei se você lê o jornal O Globo por aí. Se não mora no Rio, é provável que não.

Mas, se leu, deve ter se encantado com o caderno de automóveis de hoje, assim como eu.

Se não, eis aqui, nobre amigo, a surpresa que veio estampado em bom e velho processo de impressão sobre o conhecido e admirado papel.

A surpresa é que, semana que vêm, completam-se os 85 anos da Primeira Exposição de Automobilismo do Rio de Janeiro, que aconteceu entre 1º e 16 de agosto de 1925. Alguém tinha ouvido falar nisso?

As fotos que ilustram a matéria, pelo visto os únicos registro deste acontecimento, são parte de um álbum com 104 imagens que pertenceu ao engenheiro Adelstano Porto d’Ave (1890-1952), projetista e presidente do Clube dos Bandeirantes, que promovia reides pelas trilhas e poucas estradas de então. O livro foi emprestado por Rodolfo, neto deste que é um dos pioneiros da nossa paixão e mania de organizar clubes e formas de apreciar o automóvel. Com isso, o nome dele está resgatado para a posteridade. E também o do saudoso Automóvel Club, que promoveu o evento a fim de estimular as importações e vendas por aqui. Era preciso forçar a indústria e o governo a construir estradas.

O evento teve a participação da Ford, General Motors, Chrysler, Gray, Packard, Hudson, Itala, Lancia e Voisin. Duro de acreditar que os Hispano-Suiza não participaram por um atraso no navio que os trazia da Europa. A Exposição de 1925 utilizou as instalações da de 1922. Assim, os pavilhões da Itália e Portugal de 22, localizados na esquina de Presidente Antonio Carlos e Presidente Wilson, abigaram este evento que deve ter sido motivo de muita conversa e curiosidade no bucólico Rio de Janeiro de 1925. Com tantos fantasmas históricos me assombrando pelas caminhadas pela cidade, este é mais um que se soma à minha imaginação quando for atravessar aquele canto perto do Santos Dummont.

Entre tantos fatos extraordinários, é de virar a cabeça o fato de que, para a Exposição, a Ford montou uma linha de montagem inteira, completa, em pleno centro da cidade do Rio, para produzir ao vivo os seus Modelos T. Pelo que se lê na reportagem, dezenas deles foram produzidos, imagino que para assombro e deleite de quem testemunhou esta cena absolutamente extraordinária: máquinas que andam sozinhas surgindo na sua frente como que por encantamento.

Bom, em sendo assim, é um fato histórico que eu ignorava este de que a Ford teve uma linha de montagem no Rio de Janeiro! Sensacional. Paulistas, mesmo que por apenas duas semanas, não estraguem minha alegria. Nós também tivemos a Ford aqui. Claro que ninguém anotou os chassis que foram fabrincados ali perto da Igreja de Santa Rita, mas a partir de agora eu vou olhar para os Ts que cruzarem meu caminho com um ar suspeito. Me pergunto ainda se e quando a Ford fez esse tipo de coisa novamente. Será que nos EUA fizeram isso? Nunca soube. Com o tanto de dealers já em 1913 canalizando a oferta do Henry Ford para a insaciável demanda do consumidor americano pelos T, acho improvável. Mas quem saberá dizer? Vou cutucar os gringos lá fora e ver o que descubro.

A última curiosidade dá conta de que o Pavilhão de Portugal, que sediou parte da Exposição, ainda existe. Em estrutura metálica, foi desmontado e levado para Lisboa, onde hoje se chama Pavilhão Carlos Lopes. Veja como era na primeira foto abaixo e como ele está hoje. Ainda bem que está em Lisboa. Se aqui não sobreou nem o Palácio Monroe, o que dizer deste.

Pois bem, eu não escrevo mais. Só republico o texto na íntegra e deixo para quem quiser os comentários e elogios que suscitam a Exposição em si e mais esta iniciativa de O Globo, que muito têm se empenhado em resgatar a história do automóvel. Vou escrever ap Jason Vogel, que assina a matéria, agradecendo pela oportunidade.

Abaixo, as duas páginas da matéria, para os internautas do futuro. Clique sobre elas para ampliar, estão em tamanho natural.